15 de setembro de 2009

Silly hangover

The scene stands stubborn: num quarto suburbano mergulhado em trevas homicidas, exactamente no meio da civilização mas longe de qualquer contacto humano, um homem é assaltado pelos pensamentos negros habituais, imaginações que principiaram subtis e que agora o atacam violentamente, que agora quase o submergem. O homem permanece obsequiosamente vivo contra a sua vontade mais genuína, num corpo agonizante que se recusa a mexer, em delírio numa horrível tarde de Domingo depois de um escândalo nocturno – mais um, neste caso. A roupa vomitada no chão. O que é que se pode fazer? – Estes dias são mesmo assim, um gajo sai à rua para espairecer apenas, para levar com ar nas trombas, estar com a gajada emparvecendo a juventude, e acaba por apanhar uma bezana descomunal, de caixão à cova., absolutamente inútil. Quatro compinchas num parque público e três garrafas de estupefacção engarrafada, a danada percentagem de etanol, escassas pessoas passando por eles. A noite é uma criança. Tinham decidido apanhar uma tosga assim de repente, e então passaram pelo contenente e compraram um brande, uma garrafa de cachaça com limonada (dizia caipirinha no rótulo) e uma garrafa de rum ornamentada com a imagem de um palhaço do defunto império britânico. Tudo fácil depois de uns tragos, agora é uma porcaria pesada que não lhe sai da cabeça. Trôpegos e alegres, com a cabeça ausente, limpa de toda a imundície da vida acordada habitual, começaram a correr – esta cena passa-se no Parque das Nações perto do Oceanário, há para ali uns canteiros e umas poças de água que se tornam muito porreiros quando se está alcoolizado. Andaram por ali aos saltos como crianças terríveis sem os pais por perto, putos novos que reencontraram a inocência, a genuína inocência que o álcool por vezes concede. Putos sem pensamentos importantes e com uma alegria genuína no lugar do espírito. Putos genuinamente alegres.
O homem cansou-se de tão neurasténica alegria... Sente-se mal e quer vomitar as entranhas. Está dentro dele encurralado, maior do que a bebedeira que apanhou. Crê que os outros não se deixaram vencer pelo ego da angústia - porque, sem dúvida, a eles também lhes deve estar a custar, mas para eles não passa de um mal-estar físico, uma dor orgânica legítima, sem indícios vagos de preocupações éticas e existencialismos mesquinhos, mas o homem sente-se submerso num mundo a que não pertence, divagando palermas alucinações. Tem estado doente desde que nasceu.