Até à hora do almoço, entra na livraria apenas um velhote de costas tortas com uma bengala, a olhar para os livros muito vagarosamente e demorando-se na leitura dos títulos, murmurando imperceptíveis coisas que nascem da poeira do cérebro. A empregada oferece-lhe os préstimos, ele sorri e diz que está só a ver, obrigado. Leonor deixa-se estar atrás do balcão, põe o cabelo para trás das costas, cruza os braços e recosta-se na cadeira, os seios retesando a blusa vermelha, a olhar para o velhote prestes a desconjuntar-se ao mínimo tropeção numa frase magnífica ou numa imagem sugestiva de algo menos corriqueiro que o quotidiano prenhe de lugares comuns, algo que ainda seja capaz de satisfazer os apetites recônditos de um idoso com os pés para a cova. Não tropeça, mas dirige-se a ela com ar de cágado sabichão com dobras antigas no pescoço, lianas de pântano moribundo aos tremelicos. Em contrapartida, a fragilidade do corpo é recompensada pela esperteza do olhar e a limpidez da voz.
― Bom dia. Eu vim aqui para ver se encontrava um livro de poemas para a minha esposa, que gosta muito de ler. Talvez me possa ajudar. Tem alguma sugestão? António Gedeão não seria má ideia. Andava lá por casa um livro dele, mas o meu neto levou-o.
― António Gedeão não temos. Talvez lhe possa sugerir um livro do Cesário Verde. Saiu há pouco tempo, é de um manuscrito que encontraram recentemente no baú de um descendente de Silva Pinto, que publicou a compilação da sua poesia. Pelos vistos incompleta…
― Parece-me bem. Posso dar uma vista de olhos?
― Com certeza. Vou buscá-lo. Mas sente-se, ponha-se à vontade…
E, enquanto Leonor se dirige à secção onde os rostos dos poetas ainda lutam para ostentarem as suas particularidades – sim, porque a poesia é uma afirmação de rostos, de traços individuais, porque denuncia continuamente a tragédia da individualidade –, o velho senta-se vagarosamente numa poltrona encostada a uma parede de tijolos vermelhos, perto de uma ferrugenta escada em caracol que sobe para o misterioso andar de cima, onde talvez o patrão da empregada faça ocasionalmente uma pequena peregrinação de livros e reflexão, ou somente os livros morram soterrados em pó e escuridão, ou simplesmente o andar onde a empregada possa ir verter os líquidos e putrefacções habituais, que vencem assim literatura, que no andar de baixo constitui um negócio e uma arrogância, um luxo. Subitamente, quando o organismo ruge de orgânica inquietude, as vicissitudes do espírito, com o seu rol de lacrimejantes bramidos de pura embirração, desaparecem, toda a literatura e toda a tolice desaparecem, e tomamos súbita consciência do sangue e dos músculos, do despotismo da carne e do desejo.
― Bom dia. Eu vim aqui para ver se encontrava um livro de poemas para a minha esposa, que gosta muito de ler. Talvez me possa ajudar. Tem alguma sugestão? António Gedeão não seria má ideia. Andava lá por casa um livro dele, mas o meu neto levou-o.
― António Gedeão não temos. Talvez lhe possa sugerir um livro do Cesário Verde. Saiu há pouco tempo, é de um manuscrito que encontraram recentemente no baú de um descendente de Silva Pinto, que publicou a compilação da sua poesia. Pelos vistos incompleta…
― Parece-me bem. Posso dar uma vista de olhos?
― Com certeza. Vou buscá-lo. Mas sente-se, ponha-se à vontade…
E, enquanto Leonor se dirige à secção onde os rostos dos poetas ainda lutam para ostentarem as suas particularidades – sim, porque a poesia é uma afirmação de rostos, de traços individuais, porque denuncia continuamente a tragédia da individualidade –, o velho senta-se vagarosamente numa poltrona encostada a uma parede de tijolos vermelhos, perto de uma ferrugenta escada em caracol que sobe para o misterioso andar de cima, onde talvez o patrão da empregada faça ocasionalmente uma pequena peregrinação de livros e reflexão, ou somente os livros morram soterrados em pó e escuridão, ou simplesmente o andar onde a empregada possa ir verter os líquidos e putrefacções habituais, que vencem assim literatura, que no andar de baixo constitui um negócio e uma arrogância, um luxo. Subitamente, quando o organismo ruge de orgânica inquietude, as vicissitudes do espírito, com o seu rol de lacrimejantes bramidos de pura embirração, desaparecem, toda a literatura e toda a tolice desaparecem, e tomamos súbita consciência do sangue e dos músculos, do despotismo da carne e do desejo.