14 de março de 2009

O efeito do álcool na percepção do tecelão sulista de Carson McCullers

O álcool de Miss Amélia é uma coisa à parte. É puro e queima na língua, mas, quando desce, faz efeito durante muito tempo. Mas não é tudo. É sabido que, se uma mensagem é escrita com sumo de limão numa folha de papel branco, não se vê. Mas se o papel for aproximado do fogo, então as letras aparecem castanhas e o significado torna-se claro. Imagine-se que o whisky é o fogo, que a mensagem apenas é conhecida pela alma do próprio – é assim que o valor do álcool de Miss Amélia pode ser avaliado. Coisas que passaram despercebidas, pensamentos que, acumulados no fundo da mente, são repentinamente revelados e compreendidos… Um tecelão que só se preocupa com o tear, a lancheira, a cama e novamente o tear – este tecelão pode beber um pouco no domingo e deparar com um lírio do pântano. E, com a flor na palma da mão, examinará a corola frágil e sentirá uma doçura tão penetrante como o sofrimento. O tecelão levantará os olhos vendo, de súbito, pela primeira vez, o sinistro e frio brilho do céu de Janeiro à meia-noite, e o receio profundo da sua própria pequenez far-lhe-á parar o coração… Coisas como esta aconteciam quando um homem bebia o whisky de Miss Amélia. Podia sofrer ou ficar exausto de alegria – mas a verdade fora revelada: a alma tornara-se cálida e lera a mensagem nela escondida.

Carson McCullers, Balada do Café Triste, trad. José M. Guardado Moreira, Relógio d'Água, 2001