Naveguei durante muito tempo no mar desabitado e selvagem da poesia, barco bêbado à deriva num campo imenso que eu julgava incriado, à procura do amor do ser humano, a compensação de uma orfandade pela via secreta das palavras. Lancei-me com esperança e desvario no encalço do sonho de fraternidade, escravizei-me ao idealismo da arte – não encontrei nada nem ninguém, e talvez ainda agora esteja a sofrer, a ressacar dessa visão fatal do deserto em que o artista tinha visões que eram apenas visões, que não eram nada. A palavra que eu gritei no seio da solidão era afinal tão estéril quanto o mundo que eu abominava, para o qual eu queria criar uma alternativa. Era um ofício de castidade absorvido nas falácias da criação vã.
A realidade, porém, a realidade visível do mundo, das vidas das pessoas de carne e osso, pertence a esse colectivo abominável, a toda a humanidade, e nenhum poeta a pode transformar por via das suas deambulações. Tencionei depois regressar à acção política, mas constatei então que estava só, como estou agora, em reclusão, e caí num universo pessoal de depressão e angústia, apetrechado de horrores góticos e lucubrações macabras alimentadas pela glória alquímica do cânhamo e dos cogumelos, que eu comia como se ainda houvesse uma verdade escondida da qual eu aguardava pelo menos um vislumbre, e que essas drogas poderiam talvez facultar, uma visão libertadora, e continuava a escrever e a pintar as paisagens que encontrava pelo caminho. Depois da anterior decepção, e consciente desta, fi-lo por não haver mais nada na minha vida pessoal, apenas por um desporto de redenção, na continuação inevitável dos dias iguais, até ao fim… Foi quando fiz a melhor poesia, quando não esperava nada dela, quando a entreguei ao destino e à vontade dos elementos naturais e à trajectória dos astros. Caí no lugar obscuro dos suplícios com que resolvi afligir-me, por não haver mais nada. A arte é uma inevitabilidade abjecta, inútil mas obrigatória, como a vida mecânica que as pessoas normais têm, para depois morrerem sem deixarem o seu registo na História. Recomecei a produzir poemas, já não para transgredir ou para explorar, já não para construir o que quer que fosse, mas por uma questão de identidade, por me saber poeta.
A realidade, porém, a realidade visível do mundo, das vidas das pessoas de carne e osso, pertence a esse colectivo abominável, a toda a humanidade, e nenhum poeta a pode transformar por via das suas deambulações. Tencionei depois regressar à acção política, mas constatei então que estava só, como estou agora, em reclusão, e caí num universo pessoal de depressão e angústia, apetrechado de horrores góticos e lucubrações macabras alimentadas pela glória alquímica do cânhamo e dos cogumelos, que eu comia como se ainda houvesse uma verdade escondida da qual eu aguardava pelo menos um vislumbre, e que essas drogas poderiam talvez facultar, uma visão libertadora, e continuava a escrever e a pintar as paisagens que encontrava pelo caminho. Depois da anterior decepção, e consciente desta, fi-lo por não haver mais nada na minha vida pessoal, apenas por um desporto de redenção, na continuação inevitável dos dias iguais, até ao fim… Foi quando fiz a melhor poesia, quando não esperava nada dela, quando a entreguei ao destino e à vontade dos elementos naturais e à trajectória dos astros. Caí no lugar obscuro dos suplícios com que resolvi afligir-me, por não haver mais nada. A arte é uma inevitabilidade abjecta, inútil mas obrigatória, como a vida mecânica que as pessoas normais têm, para depois morrerem sem deixarem o seu registo na História. Recomecei a produzir poemas, já não para transgredir ou para explorar, já não para construir o que quer que fosse, mas por uma questão de identidade, por me saber poeta.