No entanto, à noite, Jake sentiu-se novamente tenso. Singer havia guardado o tabuleiro de xadrez e agora estavam sentados à frente um do outro. O nervosismo fazia tremer os lábios de Jake e ele bebia para se acalmar. De repente, foi invadido por um turbilhão de inquietação e ansiedade. Bebeu o uísque de um trago e recomeçou a falar com Singer. As palavras cresciam dentro dele e saíam em catadupa da sua boca. Jake caminhava entre a janela e a cama, repetidamente. Até que, por fim, o dilúvio de palavras ganhou forma e ele proferiu-as com uma ênfase embriagada:
– As coisas que eles nos fizerem! As verdades que eles transformaram em mentiras. Os ideais que conspurcaram e destruíram. Jesus, por exemplo. Era um dos nossos. Ele sabia. Quando disse que era mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus… Ele sabia muito bem o que estava a dizer, com um raio! Olhe bem para o que a Igreja fez a Jesus nestes últimos dois mil anos. Naquilo em que o transformaram. A maneira como a Igreja manipulou todas as Suas palavras para o seu próprio proveito. Se ainda fosse vivo, Jesus estaria agora preso. Seria uma das poucas pessoas que sabem realmente. Eu e Jesus sentar-nos-íamos a uma mesa, olhar-nos-íamos nos olhos e ambos saberíamos. Eu, Jesus e Karl Marx podíamos sentar-nos e uma mesa e…

em O Coração é um Caçador Solitário, Carson McCullers, trad. Marta Mendonça, Ed. Presença, 2010