O escritor está sentado na sala a fingir que olha para a televisão. Pelos seus olhos correm imagens velozes que a mente não capta. Há um mundo muito grande dentro de si, tão vasto e rico que por momentos substitui a realidade exterior que o corpo veste, como se as muralhas se tivessem tornado gigantes e intransponíveis, feitas de um material que não pode ser destruído. Dentro destas muralhas, personagens interessantes atacam-se com ferocidade. Decorre uma luta, uma dança de corpos, e ouve-se uma sinfonia terrível. De repente, João acorda para a percepção da realidade sensorial imediata, sem a qual aliás as tais personagens e a tal luta não existiriam, e lembra-se que está à espera da companheira, que se demora na casa de banho e no quarto com a pomada para o rosto, a forma do cabelo, a roupa que fica melhor e um sem número de preparativos do género. Leonor quer sair para a rua com confiança e optimismo, recorrendo para tal ao expediente da imagem, mas demora-se a arranjar a combinação estética final e João exaspera-se:
– Despacha-te!
– Estou quase! – grita Leonor, esganiçadamente.
Penteia-se com pressa defronte do espelho, desemaranhando o cabelo com raiva. Por momentos, o escritor de 34 anos de vida, apercebendo-se do lugar-comum do homem à espera da mulher na sala de estar dum apartamento num bairro habitacional para a classe média, crê que a sua vida se tornou igualzinha à que o pai tinha, o que o deixa num estado de tristeza subtil e resignada. Tira mais um cigarro do maço e acende-o. Enquanto o vai aspirando, a ficção retoma lugar na sua mente, onde as tais personagens continuam com fúria e agridem-se. João não sabe ao certo o que é que a personagem central da história, uma jovem universitária de 23 anos que sofre de psicose maníaco-depressiva, vai fazer a seguir, mas deixa que a sua presença apareça timidamente na nuvem de fumo – uma presença ténue e incerta, que ele tem de descortinar e decifrar, como um sonho misterioso que esconde o significado de tudo o que existe. Entretanto, ouve os tacões de salto alto da companheira a bater freneticamente nos mosaicos do hall de entrada.
– Já estou pronta. Vamos? – pergunta, aparecendo à porta da sala enfiada num vestido preto elegante.
Só que João tem de permanecer ali por mais uns momentos, na contemplação daquelas vidas imaginárias, e não reage. Os seus olhos são grandes como os de um peixe pequeno e inteligente no meio dum oceano desocupado.
– Vou descer. Levo as chaves do carro.
Leonor está habituada aos acessos de criatividade do namorado e sabe que o melhor é deixá-lo estar um bocado sozinho a resolver os enigmas, para que estes não se percam para sempre e a literatura deixe de existir. Ela sente que tem de servir o seu génio. Não por ele ser um homem e ela estar apaixonada por ele, e por ela ser mulher, mas porque no génio há uma fraqueza que tem de ser ultrapassada através da cumplicidade total com outro ser humano. Se Leonor se tivesse apaixonado por uma mulher, seria a mesma coisa. Desce as escadas, abre a porta do carro, senta-se no lugar do condutor e fica à espera dele com o rádio ligado. Entretanto, a visão do escritor chega ao fim. A jovem mulher pede que o seu criador a leve ao suicídio. Tem de ser assim. João escreve umas frases no caderno de capa de couro que anda sempre consigo, vai à casa de banho mijar, calça os ténis, veste o casaco e sai para a rua. O briol entra-lhe no corpo, enfia-se-lhe nos ossos. Corre para o carro, abre a porta do carro e senta-se ao lado de Leonor.
– Porra, estou a morrer de frio. Vamos embora.
Leonor arranca. São 21h30 de uma noite fria de Novembro, em Lisboa. Em Alcântara, na Galeria Seis, Luís, um ex-namorado, mostra os seus quadros aos convidados. É a inauguração da sua primeira exposição individual na galeria mais conceituada da cidade. O artista está nervoso. O seu trabalho é sobre a morte e a procura de Deus, temas que se evidenciam através de figurações carregadas de onirismo sobre experiências vividas na infância. Ele e Leonor tiveram uma relação amorosa acidentada, marcada pela dúvida permanente dele quanto ao seu valor enquanto artista, um complexo de inferioridade que se manifestava no consumo excessivo de álcool e de erva e em fulminantes ataques de raiva. A relação durou uns três anos. Quando começou a expor a sério, Luís encetou um projecto de vida um tanto estranho – centralizou a sua existência na sua pessoa e na sua arte, passando os dias em reflexões solitárias e celibatárias das quais saiam representações da sua psique atribulada, alheia à existência das pessoas que faziam parte da sua vida real. Descobriu que a riqueza da sua arte estava na revivência dos episódios traumáticos da infância e passou a viver obsessivamente no passado. Estas reclusões nostálgicas e masoquistas não agradaram a Leonor e os dois separaram-se.
– Estás nervosa? – pergunta João.
– Não. E tu, estás nervoso por o conheceres?
– Não – responde. – Só espero que não seja uma seca – abre o porta-luvas, saca de um cantil com whisky que costuma ter para as emergências e bebe uns goles valentes.
– Passa para cá – pede Leonor, e bebe também.
Encontram a tal galeria e estacionam o carro. Entram. O sítio está animado. Montes de gente. João reconhece um colega da faculdade e vai falar com ele. Entabulam uma conversa sobre as coisas habituais – os empregos, as mulheres, as recordações da juventude –, e embarcam no saudosismo obrigatório de quem não se vê há muito e já não se conhece, restando apenas o brilho dos tempos áureos passados. Leonor avista o ex-namorado rodeado de gente ávida e acena-lhe. Ele também acena a mão e sorri-lhe. Leonor dirige então a sua atenção para os quadros e passeia pela galeria contemplando este e aquele e aqueloutro quadro, tentando tirar ilações sobre uma pessoa com quem partilhou três anos da sua vida. Encontra quadros que já conhece. Num deles, um rapazinho está deitado numa cama sobre uma nuvem, um conjunto fechado dentro duma jaula de barras negras e espessas suspensa no ar azul-celeste. O miúdo tem os olhos quase fechados e sonolentos voltados para uma figura beatífica e de Virgem Maria flutuando sobre a jaula e segurando nas mãos um livro, como se estivesse a contar ao miúdo uma história para adormecer. Leonor tinha detestado aquele quadro – o rosto da Virgem era o seu e o do rapazinho era o de Luís, mas o pintor não lhe tinha dito nada. Leonor tinha-se irritado e houve uma discussão horrível. Ainda por cima, o quadro tinha sido comprado. Estava ali naquele dia porque era considerada uma das obras-primas do artista, e como os donos da galeria tinham decidido fazer uma pequena retrospectiva da sua obra fundamental, pediram a alguns compradores que as emprestassem para a exposição.
Entretanto, João consegue despachar o colega e vai ter com Leonor.
– Então, já conseguiste falar com ele?
– Não. Há muita gente à volta dele.
– É aquele ali? De calças de bombazina e gravata vermelha?
– Sim, é esse. Olha lá para este quadro com atenção.
João olha para o quadro com atenção.
– Olha, és tu, a Virgem Maria. Grande pancada. Estavas apaixonada por este gajo?
– Sim. Devo ter queda para me apaixonar por gajos com pancada.
– Portanto, eu tenho pancada e tu estás apaixonada por mim.
Leonor sorri, enlaça o braço no do escritor e os dois caminham fitando as obras em exposição. Deparam-se com um quadro de tamanho superior aos outros e ficam a olhar para ele com espanto – uma representação gótica, macabra e violenta da crucificação de Cristo, o espectáculo dramático do sangue brotando com abundância de lacerações profundas recentes, como no filme do Mel Gibson. O vermelho do sangue é berrante e causa impacto, é um vermelho obsceno. As outras cores do quadro são propositadamente escuras e mortiças. A atmosfera é cinzenta, quase preta e carregada de nuvens gigantes e pesadas, como se fossem cair de repente sobre a cena. Apesar disso, as duas mulheres não arredam pé da base da cruz, prostradas sob o mártir num velório silencioso, duradouro e já sem lágrimas, depois dos momentos de histerismo. No espaço à volta das mulheres não há ninguém, dando a impressão de o sítio ser um descampado imenso e agreste, um desterro onde os criminosos são executados e deixados a apodrecer sob um céu duro sem piedade. Dá a impressão de pouca gente ter assistido à crucificação, depois da qual todos se foram embora, à excepção das duas mulheres – a amante e a mãe, ou a irmã e a mãe, ou as duas amantes, ou duas mulheres que são simultaneamente mãe, amante e irmã. O rosto de Jesus é o do pintor.
– Narcisista – observa João.
– Deve estar envolvido sexualmente com as mulheres – diz Leonor.
Uma gargalhada irrompe do silêncio por trás deles. Voltam-se para trás – é o pintor.
– É claro que são as minhas mulheres – e solta mais uma gargalhada louca. – Como é que estás? Obrigado por teres vindo.
– Estou bem. Este é o João, o meu homem – os dois artistas apertam as mãos.
– Prazer em conhecer-te – diz Luís. – Obrigado por teres vindo também.
– É um prazer. Os teus quadros são muito marados.
– Claro que são.
Um silêncio breve. Há algo de indizivelmente sofrido nestes homens que transformam as cinzas das suas vidas em arte, ou no que julgam ser arte, sem nunca se aproximaram de algo verdadeiro. Algo verdadeiro é uma mulher, por vezes. Nunca entram nela e nunca a apreendem verdadeiramente, mas, por outro lado, nunca se libertam da necessidade de estarem perto dela. Há mulheres que parece que foram feitas de propósito para os artistas. Leonor é uma delas. Mas uma musa gera conflito quando há mais do que um artista a disputá-la, mesmo quando a disputa é inconsciente. Depois de a ter perdido, o pintor acordou para a percepção da necessidade dela e teve vontade de se matar. Não o fez. Continuou com a sua arte. Agora, há entre João e Luís uma animosidade de amantes e artistas. No entanto, João é tímido, nunca suportou aquele olhar que Luís lança sobre si, de avaliação, e então desculpa-se e retira-se, dizendo que vai buscar um Favaios.
– Alguém quer uma bebida?
– Não, obrigado.
Luís e Leonor ficam perante o quadro da crucificação a falar das coisas. Ela fala da sua vida com João, do amor e das despesas que este acarreta. Do sacrifício de ser companheira de um escritor de noites e fins-de-semana.
– É uma obsessão. Às vezes, chego a casa e encontro-o em transe em frente ao computador. Nem me fala. Outras vezes, encontro-o bêbado, a rir-se e a dizer que não tem talento, que a escrita dele não serve para nada, a gozar consigo próprio.
– Isso é-me familiar. Reconheço-o, agora que não tenho dúvidas quanto à minha arte. É uma fase.
– Pode ser. Mas também pode ser que ele se afeiçoe à sensação do fracasso e fique agarrado a ela para sempre.
– Não me parece. Eu já o li. É demasiado talentoso e deve acreditar nesse talento. Só está a ser preguiçoso, acredita.
Entretanto, João pede o seu Favaios e senta-se numa poltrona. Há uma movimentação há volta dos canapés que não lhe agrada, uma histeria que usufrui do intelecto para ser menos óbvia, mas João tem a sensação de conseguir cheirar estes pacóvios elegantes a quilómetros de distância. Dá-lhe vontade de gritar que o artista ali é ele e mais ninguém, mas não o faz. Bebe o seu Favaios e vai pedir outro. O homenzinho do bar olha para ele com ar de desaprovação, mas dá-lhe a bebida e João senta-se outra vez no mesmo sítio, procurando eliminar o nervosismo.
Uma mulher entra de rompante na galeria. João olha para ela. Está nervosa e tem a cara ruborizada e o cabelo despenteado. As roupas condizem com o estado deplorável do corpo. Parece que acordou e vestiu os andrajos de trazer por casa, que tinha à mão de semear, para chegar o mais depressa possível à galeria, não se sabe para fazer o quê – de certeza que não era para ver os quadros. A mulher é avistada e reconhecida por algumas codornizes empinocadas, que a tentam cumprimentar.
– Com licença – diz-lhes com raiva.
– Está maluca!
E corre em direcção ao artista plástico, que continua a falar com Leonor. Os dois voltam-se e assustam-se.
– Seu filho da puta! É com esta cabra que tens andado?
– Eu não tenho nada a ver com a história – diz logo Leonor, desviando-se.
– Estás maluca, ou quê? – diz Luís.
– Já vais ver, cabrão!
E então abre a mala e tira uma lata de spray. É tão rápida que ninguém tem tempo para a impedir. Lança a tinta para a frente, para o quadro da crucificação. O artista põe-se à frente, mas não consegue impedir que um risco enorme e vermelho apareça no quadro.
– Tirem-me esta gaja daqui! – grita Luís.
Os seguranças aparecem e levam a louca, que ainda consegue lançar tinta para a cara de um deles. As pessoas fazem logo um círculo à volta do artista, com a mão na boca. O escritor aparece também, liberta uma gargalhada e diz:
– Agora sim, agora é que está uma obra-prima – a contorcer-se de tanto rir.
– João! – diz Leonor.
O pintor avança e espeta-lhe um murro na cara. João perde a consciência.