Abro os olhos. Continua estendida na cama, é mesmo um milagre. Espanto-me por continuar comigo. É uma beleza excessiva para um homem incompleto, que não a merece. É a razão da minha loucura. Acaba com a minha virilidade, esgota-ma por completo. Em noites de uma fúria específica que não consigo explicar, eu despenho-me neste corpo e morro. Nesses momentos eu não existo, ou outro em mim existe que percorre voraz este pequeno continente fecundo, ou, para ser mais claro, o indivíduo taciturno e matinal transforma-se em aventureiro despótico e embrenha-se nesta terra brava à procura da fonte primordial. Pois acaba por encontrá-la e beber dela e ficar louco.
Mas agora que, à luz do dia, o ser pragmático me regressa, decido que o que está aqui é apenas um monte de vísceras e ossos e o caralho desentesa-se e regressa ao estado normal, à quotidiana humildade. Afinal a presença dela na minha cama enoja-me. É assim… Quando a luz invade o quarto e o despoja das sombras que encobriam o foco luminoso do próprio espírito erótico, protegendo-o numa redoma de mistério, este desaparece também, como poeira para dentro do grande aspirador atroz da manhã, e os seres efémeros, à noite criminosos fabulosos, sucumbem à tirania da sobrevivência e avançam lúcidos para a dor matinal de viver.
Pois levanto-me com cuidado, sem fazer barulho, por respeito à Raquel que em sonho se autoriza uma doce fornicação ininterrupta sem a cristã consciência do pecado. Sei que a possuo em sonhos, ou talvez ela seja possuída por outro demónio barbudo e musculado com uma verga maior do que a minha – é que eu nem posso cobiçar a ditadura de saber se ela em sonhos vai comigo se com outros, para depois me zangar e a admoestar; nem ela pode conhecer o teor das minhas fantasias íntimas, que até a mim me escapam. Vou para a cozinha fazer o café ritual, que porventura me ajudará a varrer alguns estilhaços oníricos que ainda me teimam na cabeça, a transitar com razoável ânimo para a nova realidade, a diurna. Tomo o café numa chávena enorme com a janela aberta, a olhar lá para fora, para as nuvens carregadas de um cinzento austero promissor de angustiantes correrias pelo mundo atrás das pessoas que açambarcam a sociedade, o mercado de trabalho e todos os sítios civilizados, malditos sejam, para lhes pedir esmola com este meu rosto submisso e impotente. Filhos da puta… Mas eu vou atrás deles e persisto, insisto, para ter com que comer, e poder nutrir com os mais diversos afrodisíacos a paixão que tenho pela minha diaba, para alimentar o fogo que sentimos à noite alastrar para além de nós e chegar talvez a terras por descobrir, planetas onde a honestidade não seja considerada pelos poderes vigentes uma obscenidade e um perigo, a manter dentro dos redis da Arte, esse júbilo dos insanos.
Mas eis que ela também se levanta e agora caminha para mim, nua, com as mamas a saltitar de contentamento juvenil e a darem-me os bons-dias, enquanto os olhos caçadores perversamente me percorrem e destapam e ferem. Com uma languidez sensual, empurra para si a minha nuca com a mão direita, para sugar-me através dos lábios, enquanto a esquerda desflora violentamente a disposição virginal do meu caralho, acometendo-o outra vez daquela raiva de querer entrar dentro dela e derrubar tudo lá dentro, uma raiva que se revolta contra o amor, e insurge-se, incha de sangue e pulsa, torna-se gigante, fica possesso e comete o crime, irrompe com violência pela floresta selvagem e embate, embate, embate repetidamente naquelas areias movediças, dá marretadas valentes sem se cansar, sem compreender aquela deliquescência. Despejo-me nela. É a celebração, o triunfo do nosso matrimónio.
Acabamos exaustos sob a claridade de início que entra pela janela sem permissão, invadindo o quarto, iluminando a terra nos amantes que somos, meros despojos da batalha dos elementos. Rajadas fulminantes destroem a sensualidade e acordam os sentidos para a aspereza do quotidiano. As palavras que dizemos são já nostalgias, memórias da infância louca de há momentos, e nós, poetas velhos que sobrevivem a despeito de ser parco o desejo de viver, dizemo-las de olhos fitos no tecto, fronteira da nossa ilha exótica.
– Gosto quando te portas mal logo de manhã – diz-me ela.
– E eu gosto quando tu me obrigas a isso. És a minha diaba, a minha tentação, a minha musa.
– Sou o teu objecto poético?
– Não. És tanto objecto poético como eu. Somos dois objectos poéticos de uma harmonia que só entendemos quando nos unimos. Fazemos parte da música, percebes?
– Perfeitamente – diz com ironia.
Mas eu sei que ela percebe. Nesse aspecto é mais homem do que eu, porque não liberta tanto as emoções quanto eu e racionaliza tudo, tirando imediatez à realidade quando a peneira com rigor através de intricadas leis de causalidade que servem para tudo, ao passo que eu, mesmo acreditando nessas leis e explicações, deixo que a realidade entre em mim como um tóxico. Chego a ser lamechas e a chorar, ocasiões em que ela por vezes me diz para eu me comportar como um homenzinho, como se costuma dizer aos rapazinhos.
– A tua mente excessivamente racional não te autoriza a que acredites no amor.
E ela cala-se, porque sabe que não é verdade mas não o diz, porque isso significaria dizer que me ama, e isso sim, isso seria contra a sua mente científica. Levanta-se e vai para a casa de banho. Ouço a ignição da chama do esquentador e espero um bocado. Levanto-me e vou ter com ela. Também a água quente é uma protecção do mundo. Demoramo-nos ali, calados, sem vontade de sairmos da banheira. Beijamo-nos longamente. Ela masturba-me. O tempo não existe até eu me esvair outra vez. Saímos para o frio e vestimo-nos.
E agora sim, agora estamos lúcidos. Enfrentamos o mundo. Saio de casa e dirijo-me para a paragem do autocarro apinhada sob a chuva furiosa, que castiga a raiva do ser humano e a sua estupidez, a obsessão por símbolos e coisas inexistentes, o trabalho abstracto. Volto-me para trás. A minha diaba está à janela a olhar para mim, envolta no meu robe e curvada sob uma caneca de chá fumegante.