14 de abril de 2010

Episódio sem Importância

Lembro-me de um episódio que se passou na minha vida que não teve grande importância. De todos os que me aconteceram, não sei por que me estou sempre a lembrar deste. Se calhar é mesmo porque não teve importância.
Eu tinha 17 anos. Nessa altura, eu era um miúdo da rua. Estava sempre com os meus camaradas. Frequentávamos tascas e enfrascávamo-nos sempre que podíamos. Uma tarde de Sábado, depois de termos estado a beber cerveja e a comer caracóis, íamos nós a sair da tasca, vêm ao nosso encontro um homem e uma mulher de meia-idade. Queriam vender-nos qualquer coisa. Reparámos que tinham uns panfletos horríveis nas mãos e uns sorrisos otários nas bocas. Uns sorrisos beatíficos. A entrada para o Paraíso, era o que eles nos queriam vender, e nós meio tocados. Perguntaram-nos se lhes podíamos dispensar um poucochinho do nosso tempo. O Miguel disse logo que não, que tínhamos mais que fazer (e é claro que nós não tínhamos nada para fazer, senão andar por ali ás voltas a pandilhar), mas eu disse «Não, espera lá, deixa-os lá dizerem o que têm para dizer. Temos que lhes dar uma oportunidade.» Naquela altura eu já era ateu e sabia que Deus não existia, mas sabia-o há pouco tempo e era muito arrogante com esse assunto. Ria-me à vontade das pessoas que eram cegamente crentes.
– Os meninos foram baptizados?
– Eu fui baptizado, mas agora sou satanista – isto foi precisamente o que eu disse, e os outros riram-se. – O satanismo, sabe o que isso é? – perguntei-lhes em tom de provocação, em voz muito alta, quase a gritar. Estava possesso.
O homem e a mulher entreolharam-se, meio assustados, mas o homem respondeu:
– O menino é adorador do Sátã? – com um sotaque de aldeia do distrito de Bragança.
– De certa meneira. Quer dizer que eu celebro a minha vida pelo culto da luxúria e do hedonismo. Não tenho namorada, arranjo sempre mulheres aí da rua para enfiar o pincel, só me venho em conas porcas, e só saio à rua para me embebedar e arranjar disparates. Não é, pá? – e dou uma chapada valente nas costas do Miguel.
Deitámo-nos logo a rir.
– Vamos embora – disse a mulher, com os olhos grandes e nervosa. – Não vale a pena. Vamos – a voz a tremer-lhe. Também, não era caso para tanto.
– Vamos orar por vocês – ainda disse o velho, ao irem-se embora. – Que Deus esteja convosco.
– Ele não está no meio de nós! – gritou o Carlos.
Não sei por que é que me recordo tão bem deste episódio.