Um exército de bonecos inexpressivos percorre as ruas. Uma engenharia de comportamentos sociais soube moldar-lhes os passos – direita, esquerda, direita, esquerda, um ritmo que não se cansa – e pôs-lhes bandeiras nas mãos, que agitam com alegria fictícia no ar igualmente fictício, perfumado. Estou no meio deles. Faço parte da multidão. Gosto da multidão. Sombras enormes protegem-nos do sol. A cidade é um túmulo. Faces de estátuas são fotografadas e postas nas ruas em outdoors gigantes. Nas capas das revistas. Na televisão. As estátuas falam. São inteligentes. É preciso amá-las.
Estou no meio da multidão. Mas tenho uma espécie de tumor no cérebro. Isto não estava previsto. Não sei como marchar. Direita? Esquerda? Desaparecem os rostos e no seu lugar aparecem linhas infindas de letras, números e operações algébricas. Não sei para que servem. De súbito, o horror dos horrores – descubro que também eu sou um número.
E então transformo-me num pássaro e voo para todo o lado. Multiplico-me. Há uma espécie nova sobre os símbolos – somos nós. Voamos sobre as ilusões, atravessamos as brumas e os elementos. Abrimos o túmulo.