Estúpido, não há erotismo na literatura. Se queres erotismo, procura-o fora de ti e dos teus livros cheios de poeira, fora do teu casamento com o que quer seja, esposa, casa, carro, fora do teu habitat profissional (longe!), fora dessa vida de instituição privada. Longe do quotidiano e onde possas esquecê-lo, por breves momentos que sejam, caindo com paixão numa armadilha montada por uma mulher ou por um homem, ou por um pequeno colectivo de almas danadas. Não há erotismo numa casa bafienta. Onde não entra o sol e há uma lâmpada espalhando uma luz branca e higiénica de morgue por toda a parte, matando os micróbios, dizimando as vidas individuais, incluindo a tua, e tornando tudo limpo – até a alma, tornando-a imaculada como algo por estrear. Não vês os corpos, porque estes estão dentro de burkas burkas burkas perfumadas, negras e pesadas. Os corpos soterrados em camadas múltiplas de pano preto. Não podes cheirar os corpos. Em vez dos corpos, cheiras o perfume, seduzem-te artificialmente com esse perfume, que é melhor do que nada. Uma embriaguez que te ausenta da sujidade do real. Não há erotismo na casa fechada. Não há erotismo no mundo. Não há erotismo na literatura. Estúpido.