7 de novembro de 2010

Dois Pássaros a Voar (7)

Após uma noite de sono irrequieto, mais uma, o personagem acorda para uma manhã cinzenta, igualzinha à do dia anterior. Uma sujidade pesada na atmosfera, na sua cabeça, de dia para dia, tomando o espaço.
Confuso como é costume, levanta-se e, depois de se vestir, dirige-se para a cozinha onde liga o rádio que todas as manhãs o informa um pouco sobre o mundo, o rádio que o irrita, que o desinteressa cada vez mais, mas do qual não se consegue distanciar. Com o rádio ligado não consegue distinguir uma única palavra. Invariavelmente, o melhor a fazer é sintonizar outra estação. Após uns segundos a girar o grande botão azul, finalmente chega a uma estação onde um anúncio está mesmo a acabar e a música irritante, que normalmente acompanha a ordem de compra que move a sociedade de consumo, é perfeitamente clara. Descansado, o nosso amigo dirige-se para o frigorifico, de onde tira duas fatias de pão e um ovo que se apressa a cozinhar. Quando a música acaba e as notícias voltam, de novo o rádio soa fora de sintonia.
– Merda de rádio... – balbucia.
Cumpridos os rituais matinais domésticos, está na hora de executar o maior ritual da vida actual, que é sair para o emprego. Desmotivado e decidido a ignorar um feito de mais de um ano e meio, o arquitecto decide ir comprar um maço de cigarros no café do fundo da rua – nem todos os dias uma pessoa se sente suficientemente forte para aguentar a vida sem uma muleta. O café tem a habitual demonstração de pastelaria de segunda classe por detrás de uma montra de vidro, e vários cachecóis de clubes de futebol pendurados por toda a parte. Um empregado juvenil, magro, com o acne ainda a marcar-lhe a cara, ridículo numa camisa branca e laço preto, põe-se em frente do arquitecto e, sem dizer nada, fica à espera de um sinal.
– Um maço de Português Vermelho e um isqueiro.
– Quatro e trinta e dois.
– Quatro euros e trinta e dois cêntimos, se faz favor! – insiste o empregado.
Embora tenha claramente ouvido algo, e tenha visto os lábios finos do empregado a mexer-se, nada foi apreendido pelo homem que, com cara de parvo, olha de volta para o jovem e para a sua ridícula vestimenta. Notando que o maço e o isqueiro estão em cima do balcão e que o empregado está à espera de algo, o nosso personagem decide simplesmente meter a mão ao bolso e apresentar uma nota de 10. Recolhido o troco, apressa-se a sair.
De novo na rua, o barulho matinal dos carros toma conta dos sentidos do arquitecto. As buzinas, os motores, o pára-arranca. As portas dos prédios a abrir e a fechar, enquanto todos saem para cumprir os seus destinos, fazem os habituais estrondos ao embater. Seguindo em frente, tem apenas que deixar a inércia tomar controlo e percorrer o caminho que sempre percorre até à estação de comboios.
Perante os seus olhos desenrola-se o movimento coordenado de centenas de pessoas a seguirem uma instrução que para ele é misteriosa. Como magia, esta miríade de formigas humanas dirige-se para a linha 4. Guiado apenas pela intuição, o arquitecto junta-se à colónia e segue-os. Poucos minutos depois o comboio chega. Reconhencendo-o, o arquitecto entra e apressa-se a procurar um lugar onde se sentar.
Nada faz muito sentido. Para quê ir para o trabalho? O arquiteto olha à volta, há pessoas de todas as idades, de todas as fases da vida. Uns perto da morte natural, uns perto de prematuras, uns longe de ambas. Todos terão o mesmo destino, incluindo o arquiteto. Imagens de violência saltam-lhe no espírito. As cabeças dos seus companheiros de carruagem explodem-lhe na imaginação... o chão inunda-se de sangue, aqueles que ainda estão intactos escorregam no lago dos mortos sem gritar e ficam no chão à espera do inevitável.
Um suspiro. Um momento e todas as cabeças voltam ao lugar, todo o chão fica limpo, fica apenas o sentimento de algo por cumprir.
Uma coisa torna-se óbvia: o arquitecto não pode ir para o trabalho. Numa invulgar mestria do seu tumulto interior, toma a decisão de se deixar ir no combóio até uma das últimas paragens que o deixará nos arredores da cidade. Aí chegado, reconhecendo o sítio, não são mais de 15 minutos até ao miradouro. O miradouro é um pequeno largo situado no topo de uma colina com vista para a cidade e para o mar. Nesse largo há um antigo café de qualidade duvidosa que obviamente explora os seus clientes com preços desnecessariamente altos pelo previlégio de se sentarem nas cadeiras da esplanada. Sem mais alternativa, o nosso amigo senta-se numa das cadeiras e pega no telemovel. Um rápido telefonema à Celeste (que raramente atende o telefone) serve para lhe deixar uma mensagem a dizer que hoje não poderá contar com ele. Com o assunto mais premente resolvido, puxa de um cigarro do maço que comprou de manhã, acende-o e começa a contemplar qual será o melhor curso de acção. Sem surpresa para o próprio, dois minutos depois o que ocupa a mente do nosso personagem já não é o que fazer, mas sim vagas recordações dos tempos em que era jovem e das ilusões de grandeza que tinha para si e para a sua vida. Mas estes pensamentos tão profundos, e ao mesmo tempo tão banais, serão em breve interrompidos por uma mão leve que desvia a cara do arquitecto e a dirige para uma jovem cara feminina com um sorriso trocista e vencedor.
– Olha! Ainda estás vivo? Pensava que te tinhas suicidado – diz Madalena, saboreando o momento.
A visão daquela cara, daquele corpo, daquela pessoa, chega para engasgar o jovem arquitecto e provocar uma tosse espasmódica como se algo lhe estivesse preso na garganta, sem sair.