Estou sentado no miradouro ao fim da linha. Devia estar sentado numa cadeira de arquitecto, que foi o que me ensinaram a fazer – sentar-me refastelado no conforto do canudo sem ouvir mais nada, sem esperar mais nada, sem ambições que não as próprias, as designadas metas atribuídas pelo velho algoritmo de arrumar cabeças. E um sorriso genuíno no rosto, o sorriso de quem está contente e já não sabe o que é a inquietação. Era suposto… Em vez disso, estou sentado no miradouro ao fim da linha. No alto de uma colina que mais parece uma montanha muito alta, longe da azáfama que lá em baixo é uma ratoeira, cheia de luzes que os estonteiam e os encurralam para recintos bafientos para formarem famílias, partidos, religiões, sindicatos, credos e códigos, um deslumbramento que parece não ter fim. Uma humanidade inteira em espaços fechados. Não há lugar para claustrofóbicos. Hoje não me apanham, porque o meu estado não me permitiu ir trabalhar. Estou seriamente indisposto! Preocupa-me esta coisa na cabeça, este chumbo inacessível que me faz ter comportamentos estranhos. Era bom que só precisasse de descansar. Que eu me pusesse a descansar agora, que me deixasse ficar imóvel neste banco verde, de olhos fitos na cidade distante, absorto, e talvez o vento me varresse os pensamentos, e uma solidão insólita, algo bela também, me cercasse e protegesse do bulício da cidade. Mas qual simplesmente descansar… Eu devia mas é ficar aqui para sempre. Talvez tivesse sorte e alguma tragédia atmosférica acontecesse – uma chuva corrosiva que viesse de céus poluídos e me desfizesse o corpo, ou um raio súbito que me alvejasse. Um choque eléctrico do tamanho do cosmos não me faria mal.
Olho para baixo, para as casas pequenas, e penso que grande parte do frenesim e do trabalho de que hoje escapei é escusado. Lá se vai construindo a cidade, que se ergue de ruínas antiquíssimas… Só que estas não deixam de existir, porque a memória é coisa que não se destrói facilmente. Levantem-se prédios altos sobre os túmulos, mas os mortos não deixarão de andar entre nós e de se queixar do que lhes aconteceu, que antes da morte já andavam meio mortos, grande parte deles domesticados, para depois a morte não acrescentar nada à vida. Podemos fazer ouvidos moucos, mas as palavras já estão dentro de nós, culpando-nos de não vivermos plenamente. E convivemos com esses fantasmas, essas palavras, culpas e remorsos.
Acendo um cigarro. Gosto do fio de fumo que se desprende. Lanço pequenas argolas cinzentas para o ar e penso que é belo, é como se me estivesse a lançar para fora de mim às baforadas. Houve um tempo em que eu não sabia nada disto. Era feliz. Teria um futuro. Havia de me apaixonar por uma rapariga que me fizesse bem e construiria com ela uma vida decente, que fosse feita de propósito só para nós. Dois filhos e uma pequena nação privada, uma casa na cidade e outra no campo, no Alentejo, onde nos recolhêssemos para fins-de-semana românticos e patuscadas ao calor. E teria um emprego que fosse mais do que um emprego, que seria um trabalho que merecesse o meu esforço. Talvez pudesse ser advogado, e então só aceitaria casos em que de algum modo pudesse servir a humanidade. Daria o meu contributo e sentir-me-ia bem. Defenderia o inocente com eloquência e estaria sempre do lado da justiça. Agora tenho pena de ter sido tão ingénuo, raiva de ninguém me ter dito nada, de não me terem avisado que as coisas não seriam preto no branco, que não há uma verdade absoluta. Se eu agora fosse advogado, pertenceria a uma classe de intrujões profissionais. Claro que não me valeu de muito ter-me tornado arquitecto… Aliás, não é a profissão que faz um homem feliz. Não é o tipo de especialização técnica que ele escolhe. É o seu grau de subserviência. Quando mais servil, mais feliz. E tanto há arquitectos servis, como advogados servis, e bombeiros, médicos, contabilistas, engenheiros, padeiros, uma multidão de gente bem-disposta, que desempenha com alegria essas funções. Gente feliz, aos pontapés. E aos murros, já agora, que gente feliz é gente insensível, que não os sente.
Descarrego o ar sujo dos pulmões. Ouço uns passos ligeiros atrás de mim. Volto-me. É ela, a Madalena, de sorriso trocista e vencedor.
– Olha! Ainda estás vivo? Pensava que te tinhas suicidado – diz.
Não estava à espera desta. Tento dizer qualquer coisa, mas fico engasgado com saliva, que de repente abunda, e tusso uma e outra vez, até ela me vir bater nas costas, a rir-se da minha figura.
– Obrigado – balbucio.
– De nada. O que é que fazes aqui, em vez de no trabalho a desenhar prédios?
– Nada. Hoje não consegui ir trabalhar, dói-me a cabeça… E tu? Não tens aulas?
– Tinha aulas teóricas, mas não me apeteceu. Não se aprende nada com essas aulas. Arranjas-me um cigarrinho?
– Claro.
Tiro o maço do bolso, saco um cigarro e estendo-lho.
– Lume?
Põe o cigarro na boca e inclina-se lentamente para mim, de olhos fechados. Alcanço o isqueiro e acendo-o. Ela aspira, encosta-se ao banco com desleixe e atira o ar para cima. Depois cruza as pernas em cima do banco, de lado, e volta-se para mim.
– Com que então, dói-te a cabeça e resolveste vir para aqui arejá-la…
– Sim, é isso.
– Pois eu, sempre que posso, perco tempo em sítios como este, tento não pensar em nada. Claro que a maioria das vezes não consigo, mas é um bom exercício.
– Ah sim? Não te parece que é um exercício perigoso? Porque estás a abdicar de um direito que ninguém te pode tirar, a menos que te matem – digo-lhe. Ela sorri. – É uma espécie de suicídio rápido e transitório.
– Não estou a abdicar de nada, nem quero deixar de pensar e viver. E tens razão, é um direito… É das poucas coisas que podemos ter verdadeiramente, a nossa mente. Mas de vez em quando é bom libertares-te da lógica e tornares a tua mente absolutamente receptiva e permeável, porque é quando aceitas plenamente a realidade imediata, sem a analisares.
– Estou a ver…
– Se calhar é por isso que te dói a cabeça. Pensas demasiado. Estás sempre a pensar, a matutar nessa tua cabeça porque é que as coisas são assim e não assado. Quer dizer, eu não te conheço bem e estou arriscar ao dizer isto, mas tu ao pensares estás a filtrar a realidade, a transformá-la em informação. Toda a gente faz isto, claro, mas tu estás sempre a fazê-lo e não te deixas intoxicar. Mas a mente precisa de se intoxicar de vez em quando, com a beleza do mundo. E às vezes vemos coisas que não queremos ver, vemos a fealdade, mas isso faz parte. Desculpa, também não quero que fiques chateado…
– Não, está-se bem. Eu não fico chateado. Mas és sempre assim, tão directa com as pessoas?
– Tento ser, pelo menos com quem precisa – diz. Os cabelos soltam-se ao vento e apetece-me estender a mão e tocar-lhe a cara, para ver se é real.
É ela que estende a mão e a põe sobre a minha face direita. Olhamo-nos e compreendemos que temos de nos aproximar. As bocas caem uma sobre a outra e as línguas cumprimentam-se e brincam uma com a outra. Demoramo-nos.
– Vamos sair daqui.
Descemos para cidade com a pressa de dois adolescentes apaixonados, e de mãos dadas subimos as escadas do prédio dela. Desembaraçamo-nos das roupas e conhecemo-nos.
Olho para baixo, para as casas pequenas, e penso que grande parte do frenesim e do trabalho de que hoje escapei é escusado. Lá se vai construindo a cidade, que se ergue de ruínas antiquíssimas… Só que estas não deixam de existir, porque a memória é coisa que não se destrói facilmente. Levantem-se prédios altos sobre os túmulos, mas os mortos não deixarão de andar entre nós e de se queixar do que lhes aconteceu, que antes da morte já andavam meio mortos, grande parte deles domesticados, para depois a morte não acrescentar nada à vida. Podemos fazer ouvidos moucos, mas as palavras já estão dentro de nós, culpando-nos de não vivermos plenamente. E convivemos com esses fantasmas, essas palavras, culpas e remorsos.
Acendo um cigarro. Gosto do fio de fumo que se desprende. Lanço pequenas argolas cinzentas para o ar e penso que é belo, é como se me estivesse a lançar para fora de mim às baforadas. Houve um tempo em que eu não sabia nada disto. Era feliz. Teria um futuro. Havia de me apaixonar por uma rapariga que me fizesse bem e construiria com ela uma vida decente, que fosse feita de propósito só para nós. Dois filhos e uma pequena nação privada, uma casa na cidade e outra no campo, no Alentejo, onde nos recolhêssemos para fins-de-semana românticos e patuscadas ao calor. E teria um emprego que fosse mais do que um emprego, que seria um trabalho que merecesse o meu esforço. Talvez pudesse ser advogado, e então só aceitaria casos em que de algum modo pudesse servir a humanidade. Daria o meu contributo e sentir-me-ia bem. Defenderia o inocente com eloquência e estaria sempre do lado da justiça. Agora tenho pena de ter sido tão ingénuo, raiva de ninguém me ter dito nada, de não me terem avisado que as coisas não seriam preto no branco, que não há uma verdade absoluta. Se eu agora fosse advogado, pertenceria a uma classe de intrujões profissionais. Claro que não me valeu de muito ter-me tornado arquitecto… Aliás, não é a profissão que faz um homem feliz. Não é o tipo de especialização técnica que ele escolhe. É o seu grau de subserviência. Quando mais servil, mais feliz. E tanto há arquitectos servis, como advogados servis, e bombeiros, médicos, contabilistas, engenheiros, padeiros, uma multidão de gente bem-disposta, que desempenha com alegria essas funções. Gente feliz, aos pontapés. E aos murros, já agora, que gente feliz é gente insensível, que não os sente.
Descarrego o ar sujo dos pulmões. Ouço uns passos ligeiros atrás de mim. Volto-me. É ela, a Madalena, de sorriso trocista e vencedor.
– Olha! Ainda estás vivo? Pensava que te tinhas suicidado – diz.
Não estava à espera desta. Tento dizer qualquer coisa, mas fico engasgado com saliva, que de repente abunda, e tusso uma e outra vez, até ela me vir bater nas costas, a rir-se da minha figura.
– Obrigado – balbucio.
– De nada. O que é que fazes aqui, em vez de no trabalho a desenhar prédios?
– Nada. Hoje não consegui ir trabalhar, dói-me a cabeça… E tu? Não tens aulas?
– Tinha aulas teóricas, mas não me apeteceu. Não se aprende nada com essas aulas. Arranjas-me um cigarrinho?
– Claro.
Tiro o maço do bolso, saco um cigarro e estendo-lho.
– Lume?
Põe o cigarro na boca e inclina-se lentamente para mim, de olhos fechados. Alcanço o isqueiro e acendo-o. Ela aspira, encosta-se ao banco com desleixe e atira o ar para cima. Depois cruza as pernas em cima do banco, de lado, e volta-se para mim.
– Com que então, dói-te a cabeça e resolveste vir para aqui arejá-la…
– Sim, é isso.
– Pois eu, sempre que posso, perco tempo em sítios como este, tento não pensar em nada. Claro que a maioria das vezes não consigo, mas é um bom exercício.
– Ah sim? Não te parece que é um exercício perigoso? Porque estás a abdicar de um direito que ninguém te pode tirar, a menos que te matem – digo-lhe. Ela sorri. – É uma espécie de suicídio rápido e transitório.
– Não estou a abdicar de nada, nem quero deixar de pensar e viver. E tens razão, é um direito… É das poucas coisas que podemos ter verdadeiramente, a nossa mente. Mas de vez em quando é bom libertares-te da lógica e tornares a tua mente absolutamente receptiva e permeável, porque é quando aceitas plenamente a realidade imediata, sem a analisares.
– Estou a ver…
– Se calhar é por isso que te dói a cabeça. Pensas demasiado. Estás sempre a pensar, a matutar nessa tua cabeça porque é que as coisas são assim e não assado. Quer dizer, eu não te conheço bem e estou arriscar ao dizer isto, mas tu ao pensares estás a filtrar a realidade, a transformá-la em informação. Toda a gente faz isto, claro, mas tu estás sempre a fazê-lo e não te deixas intoxicar. Mas a mente precisa de se intoxicar de vez em quando, com a beleza do mundo. E às vezes vemos coisas que não queremos ver, vemos a fealdade, mas isso faz parte. Desculpa, também não quero que fiques chateado…
– Não, está-se bem. Eu não fico chateado. Mas és sempre assim, tão directa com as pessoas?
– Tento ser, pelo menos com quem precisa – diz. Os cabelos soltam-se ao vento e apetece-me estender a mão e tocar-lhe a cara, para ver se é real.
É ela que estende a mão e a põe sobre a minha face direita. Olhamo-nos e compreendemos que temos de nos aproximar. As bocas caem uma sobre a outra e as línguas cumprimentam-se e brincam uma com a outra. Demoramo-nos.
– Vamos sair daqui.
Descemos para cidade com a pressa de dois adolescentes apaixonados, e de mãos dadas subimos as escadas do prédio dela. Desembaraçamo-nos das roupas e conhecemo-nos.