Em um ano terá desaparecido nas corrosivas areias do tempo histórico, tragado pelo esplendor da paranóia social. Pai de família. Lembro-me das conquistas de uma juventude que partilhávamos – primeiro o berlinde, o jogo das escondidas e o bolicao, depois coisas mais sérias, como a alcoolemia de vinho de pacote, pandilhar pela cidade, a procura das raparigas, pequenas e ridículas competições de masculinidade… Tudo isto está em mim e cresce, porque em mim a juventude continua e expande-se. Cabe tudo cá dentro. Sou incapaz de sair de mim. No entanto, depois de uma certa idade, o orgulho da juventude deixa de existir, para dar lugar a uma fome insólita e solitária, uma procura idealista e perigosa de qualquer coisa para lá dos contratos, da celibatária função social, do contexto… Enquanto outros se apaixonam pela mulher certa e casam e têm filhos, tu não te vês livre da tua arrogância e continuas abrindo caminho através das lianas. Mas a paisagem torna-se agreste, porque as coisas tornam-se escassas, vão fugindo para as mãos dos verdadeiramente jovens, futuros pais de família, e tu, à falta dessas coisas, adquires o talento necessário para as criares.