8 de agosto de 2009

2 - Leonor come esparguete

Levanta-se, abre a persiana e a janela, acomoda-se à luz que desmaia do entardecer, deixando manchas e reflexos dourados e cor-de-laranja nas superfícies da cidade, fazendo talvez lembrar o domínio da esfera celeste sobre a esfera do desespero humano, feita de terra e sangue, e de acções inúteis que só servem para prolongar a estadia no reino da dor, e acende um cigarro. Fuma-o à janela inclinada, de bruços apoiados, tragando o ar carregado de nicotina e lançando-o através dos lábios sensuais para o ar que escurece a pouco e pouco para dentro de todas as casas, acomodando o desespero domesticado dessa gente, que se fecha em grutas de amor para tomar decisões que não valem nada, porque a vida é um logro. Mas elas persistem. Leonor tem a certeza que essas pessoas são estúpidas, porque não deixam de sonhar. Ela também sonha, mas sabe que apenas sonha, e que sonha com meras fantasias poéticas. Crê no sonho, mas não nas possibilidades do sonho, na súbita transmutação do sonho em realidade. Crê na imaginação, mas somente enquanto valor essencial para a criação artística. Já as pessoas não… Enchem a barriga de ilusões e são felizes. A felicidade é para os estúpidos, e ela não é estúpida.
(Comentário, obviamente faccioso, do autor: esta mulher é o cúmulo do narcisismo. Vive para manter o seu isolamento do mundo, e mascara essa distância com os conhecimentos que vai buscar aos livros. Mas é bom que o leitor tome em consideração a imprudência deste comentário, porque o autor, apesar do poder com que se investe, nada sabe da personagem.)
Apaga o cigarro no cinzeiro de madeira de sândalo que uma tia trouxera da Índia. Vai à casa de banho, abre a torneira e chapinha a cara de água fria, para se aliviar do calor insuportável que assola a cidade, mesmo à hora do jantar, no princípio da noite. Também ela está com fome, como invariavelmente está àquela hora (20h), e põe um tacho com água no fogão. Tira a polpa de tomate do frigorífico. Foi uma estupidez ter posto a água no tacho… Esvazia-o, põe um pouco de azeite no fundo e baixa o lume. Corta cebola aos pedacinhos e junta-os ao azeite borbulhante. Junta a polpa de tomate. Espera um bocado. Põe a água quente, o habitual esparguete, e aguarda no quarto com a televisão ligada, a ver o noticiário. Não há notícias de jeito… O habitual desfile das familiares caras, pagas com o dinheiro dos contribuintes enjoados, a sorrirem nos seus jogos ou a gritarem umas com as outras nos debates parlamentares, raivosas e cheias de si. Depois há as caras dos jogadores de futebol… Segue-se o interminável zapping. Levanta-se, abre uma lata de salsichas, corta-as aos pedacinhos e junta-os à massa. Minutos depois, apaga o lume, escoa a água e deita o esparguete num prato de sopa. Tira uma garrafa de cerveja do frigorífico, o copo do congelador, e deita-lhe a cerveja. Leva o tabuleiro com o prato para o quarto, senta-se na cama com as costas encostadas à parede e vai comendo e bebendo com os olhos fitos na televisão, que, apesar da óbvia falta de estilo e de qualidade das imagens e informações que por ela passam, não deixa de ser a alternativa ao quarto fechado sobre o tumulto do pensamento individual.