9 de agosto de 2009

3 - Leonor chora no comboio

No dia seguinte acorda, abre a persiana e sente-se extremamente sensual. Abre a janela e deixa a aragem fresca correr-lhe suavemente pelos seios nus, e sente que os raios do sol a acariciam e lhe penetram por todos os poros da pele. Dorme nua e a janela dá para as traseiras de um prédio. Abre a janela todos os dias úteis à mesma hora. Há um miúdo de catorze anos que se anda a masturbar todos os dias a olhar para ela. Parece que se levanta cedo só para a contemplar, para se imaginar nu naquele quarto com ela, ou talvez num quarto qualquer em que os dois viveriam em extremo deleite matrimonial. O miúdo masturba-se atrás da cortina tentando passar despercebido, dissimulando o seu corpo de adolescente atravessando o insustentável paraíso pré-orgásmico, e ela finge que não o vê. Geralmente não o vê, mas sabe, tem a certeza, que ele está ali do outro lado a olhar e a fantasiar com ela, e ela gosta e sente-se bem, de facto até se sente magistralmente bem.
Leonor é uma brasa de mulher. Morena cor de café com leite, de andar não propositadamente, mas naturalmente, felino, cabelos selvagens e soltos, formas curvas em que nos temos de despenhar e morrer… O seu corpo é altamente apreciado. Ela tem consciência disso e não consegue deixar de ter orgulho do seu corpo e da sua sensualidade natural e desempoeirada, apesar de saber que esse orgulho é fútil e inútil, tendo em conta uma série de coisas para as quais tem acordado, os tais problemas sem solução, a tal angústia cuja enormidade faz sombra sobre todas as outras coisas, que se tornam ínfimas e de importância nula, apenas trivialidades inevitáveis. Mas goza imenso com essas trivialidades – quando, com alguma sorte, acorda de manhã cedo e o céu está limpo, por exemplo, ou quando, por um motivo desconhecido, mas sempre do tipo ambiental ou psicossomático, há uma nulidade que o seu corpo atinge que permite o gozo da existência, que não se tenta transfigurar noutra coisa qualquer. Leonor veste as cuecas, o sutiã, as calças de ganga, a blusa, a indumentária oficial do mundo em que procura gravar uma pequena marca sua, um pequeno sinal de distinção, quase discreto, quase evidente, uma ténue exigência de individualidade e independência, e sai para a rua, fresca que nem uma alface, juntando-se ao exército habitual. Sem o disfarce, que por sinal odeia, não conseguiria caminhar entre eles.
A nossa outsider não tem trabalho fixo, tal como acontece com muitos outros membros do exército, o chamado precariado. A situação é grave, mas o que é que se pode fazer?… (Havia de ir para a rua gritar. Organizaria protestos inesquecíveis, que fariam mudar o rumo das políticas de emprego, e de todas as políticas. Se fosse necessário, e decerto seria, haveria violência, sangue imenso correndo pelas ruas, deixando sulcos no alcatrão, autênticos rios de sangue e sofrimento.) No dia em que olhamos para ela como através de um buraquinho invisível no seu mundo e lhe estudamos os movimentos, os pensamentos, a sensualidade, Leonor dirige-se a uma livraria, à livraria onde trabalha, na Avenida Elias Garcia, quase a chegar à Calouste Gulbenkian de quem vem da Avenida da República.
No entanto, o lugar onde Leonor trabalha é perfeitamente indiferente para esta história, porque Leonor é uma mulher cujos arrojos de criatividade têm de se manifestar onde quer que se encontre, cujos caminhos mentais diferem e escapam às solicitações de qualquer sítio. É uma mulher em que a sensualidade é tão grande que provoca uma ruptura com o sítio e com a situação, um rasgão de dissidência no pano negro da concórdia. Assim sendo, o local onde Leonor trabalha podia até ser uma lojeca de roupa e artigos eróticos. Mas os livros também são eróticos… Nos livros há uma sensualidade , mais ou menos vaga, que se traduz por palavras, escritas por um homem-falo ou por uma mulher que não receia mostrar a sua vagina a toda a humanidade. Depois há outros livros, no extremo oposto da sexualidade, em que o autor, por via de extrema timidez ou simples paranóia, se nega o direito de fornicação. Não há, nesses estranhos casos, uma ausência de sensualidade, porque esta manifesta-se de forma furtiva e perversa, insana e fatalmente viciante, auto-destrutiva, transformando-se numa doença maior do que a vida. Por muito que se admire o homem-santo que dedica uma amizade excessiva aos pássaros sem olhar com o mínimo de avidez para as mulheres que passam por ele na rua, tem de se admitir que ele é pouco saudável. Esse homem está num estádio avançado de insanidade, um estádio do qual não há regresso. O mesmo se passa com aqueles indivíduos que se dedicam quase exclusivamente à solidariedade social – à sopa dos pobres, por assim dizer. Há neles um orgulho maquilhado, uma ousadia que ofende os que procuram a verdade. São indivíduos de uma sensualidade simbólica, pretensa, arrogante e cobarde. Correm a fugir da verdade, mas nessa fuga levam à frente dos olhos um evangelho excessivamente usado e gasto, que fere os olhos e destrói a necessidade de uma verdade mais científica.
Sim, os livros exprimem o erotismo, consciente ou latente, presentes nas nossas vidas. Leonor tem essa convicção, e também reconhece outra propriedade da verdadeira literatura, que é a sua dissidência em relação à mensagem popular, que resulta do conservadorismo. O conservadorismo é estéril e anti-literário. As pessoas conservadoras podem fornicar e produzir filhos, mas não produzem vida. As crianças que nascem dessas vaginas são de plástico, como os bonecos produzidos na China para as entreter. As crianças não são todas feitas de plástico (a maioria da crianças não são feitas de plástico!), mas temos de as considerar de plástico agora, para arranjarmos uma metáfora que tão bem exemplifique a inutilidade dessas vidas. A maioria das pessoas é produzida em massa para o mesmo fim: a morte.
É nisto que vai a pensar a singular cabeça desta história, num comboio da linha de Sintra, sentada ao lado de uma mulher de meia-idade que vai a tricotar, à frente de um rapaz atraente que vai a ler um jornal de distribuição gratuito, olhando de vez em quando para as suas mamas. O comboio vai mais ou menos apinhado desde o Cacém, onde entra muita gente com os seus fedores, alegrias e tristezas habituais, geralmente taciturnos e embrutecidos na manhã austera destes dias politicamente azedos, tão horrivelmente anti-literários e humilhantes para a mente prodigiosa… É como um murro no estômago diário, o veículo da mão-de-obra a furar a pardacenta paisagem suburbana, de uma fealdade escandalosa, construção apressada de gaiolas que alojem ratos, abelhas, cavalos, iguanas, chimpanzés, cangurus, formigas, cigarras, hipopótamos, pardais, cobras, todos os animais existentes menos o ser humano, que nos subúrbios é um mito e uma exclamação dessas tais mentes brilhantes, que por vezes se sentam nos tais comboios apinhados entre o batalhão dos animais de trabalho, tentando passar despercebidos… E o comboio fura, fura inutilmente os subúrbios e leva-a a Lisboa, onde trabalha para vender livros (eróticos), entre as pessoas já velhas que tricotam inutilmente os casaquinhos a distribuir pelos netos da civilização. Todos pensam na prole, na imensa produção que os vai salvar do lodaçal deste lixado viver quotidiano. Todos… Leonor não faz parte desse todos e sofre de claustrofobia, uma doença estranha que não se limita aos espaços fechados e cheios de pó, como o seu quarto, e que a ataca também noutros espaços, mesmo nos espaços abertos e em que corre o ar, o ar infestado da cidade. Todos menos Leonor, que olha através dos vidros do comboio, pintados com spray de pintar paredes, vidros que alguns miúdos tentam em vão riscar para afirmarem qualquer coisa que lhes convém – o poder, a soberania da juventude, a irreverência tão inocente e passageira, uma revolta tão infrutífera –, para sobreviverem por instantes que sejam ao lixado quotidiano verdadeiro, tão parco em alegrias pródigas e definitivas. Olha através dos vidros e vê amplamente o épico, a poesia trágica da urbanidade periférica, os prédios altos que lançam sombras enormes sobre as pessoas, amontoados horrendos de pardieiros, tugúrios lamentavelmente dispostos sobre os caixões das pessoas, de manhã à noite a mesma merda nociva despejada sobre os transeuntes, empregados até ao fim das suas vidas, até ao fim de todos os comércios e de todas as políticas, nações e profissões. Até ao fim…
Sem se aperceber da sua tristeza, genuinamente inconsciente e fora daquele transporte público, no espaço mítico da angústia extrema, Leonor começa a chorar. Só se apercebe quando a anafada senhora à sua frente (o rapaz já tinha saído, para dar lugar a uma senhora de ar simpático) lhe toca levemente no joelho com a mão inchada de cortisona para artríticos e lhe pergunta, com uma aflição sincera: “A menina está-se a sentir bem?”. E ela desperta do transe.
― Eu estou bem, obrigada. Isto não é nada. – E sorri para a senhora simpática, dando-se conta dos olhares que se erguem dos jornais gratuitos e das rendas que cheiram a mofo, para espiar as suas lágrimas do fundo do vale da modorra, mal se apercebendo que a humilhação é deles e não dela, que apenas chora porque lhe apetece chorar, porque certamente consegue manter o seu humanismo, a sua inquietude, que é realmente uma força sentimental enorme…
― Tem a certeza? Espere lá, eu arranjo-lhe um lençinho…
Abre a mala preta e tira um pacote de lenços de papel. Abre-o e estende um lenço à menina que chora. A menina agradece. O lenço cheira a lavanda. A senhora olha para a menina e a menina sente-se envergonhada e continua a tapar os olhos com o lenço. Quando finalmente se decide a baixá-los e a enfrentar a vergonha, olha para a senhora, que a fita com olhos benevolentes e maternais, olhos que esquecera e que agora reencontra num lugar improvável, como se fosse um milagre. E agradece. Mas a anafada senhora está desejosa de falar:
― Estive a observá-la enquanto olhava lá para fora, para os prédios. Em que é que estava a pensar? É uma paisagem feia, não é?
― É horrível. Estes prédios todos em cima uns dos outros… É uma pocilga, uma prisão. – Leonor diz isto com tal irritação que faz com que a senhora se cale, torcendo a boca e esbugalhando os olhos num esgar de susto.
A senhora desvia os olhos, temendo a erupção de um vulcão que lhe estragasse o dia. E Leonor desvia também os olhos, para a visão de prédios e alcatrão, para o épico suburbano de uma tristeza inconsolável…