31 de agosto de 2009

Os excessos da imaginação

"À primeira vista não passava de um ser que juntara o seu corpo humano a uma cabeça equina, com cauda de sereia e escamas de serpente."
Umberto Eco

Desligados do fluxo incessante da acção histórica, em recessos antigos e secretos vivem os poetas da intemporalidade – mendigos santos barbudos, beatíficas crianças delinquentes, pelintras maltrapilhos magricelas… Os andrajosos profetas do instante desdenham a traição inerente às intenções e permanecem obstinadamente na aventura do satori, estragando o corpo na derradeira mutilação da iluminação. Esses cósmicos indivíduos são inofensivos, porque não há finalidade nos seus actos. Mas há aquelas raras excepções, de quem parte do exílio para comunicar as visões singulares, e esses casos é que são verdadeiramente insólitos… O Zezinho foi um deles. Abandonou aquele silêncio auto-contemplativo e tomou a firme resolução de proclamar o nirvana como se este se tratasse de um objectivo da sociedade. A coisa tornou-se política, sem contudo deixar de ser artística e devidamente explosiva. Desvairado começou a pintar paredes, como fez primeiro Basquiat, poeta pictórico nova-iorquino janado. A sua arte começava a produzir transfigurações nos rostos, gargalhadas colossais e esgares de pânico, extrema alegria e puro terror. Ele queria construir uma sociedade sem tempo, uma humanidade dominada pela sensualidade, e por isso as suas peças atacavam directamente as vísceras, sem mediação racional. Tornou-se megalómano.
Há um preço a pagar pelo embuste da arte. É que, apesar dos seus eflúvios de poderosa criatividade, o Zezinho ainda tinha um aspecto físico normal, as pessoas consideravam-no um ser humano. Um dia acordou e assustou-se – a sua cabeça parecia a cabeça de um cavalo, e em vez das pernas tinha agora uma cauda de sereia. A namorada apressou-se a chamar a ambulância.
Agora, Zezinho passa os dias num asilo para doentes mentais. É um homem de aspecto normal, mas, na sua demência, continua a achar que tem uma cabeça equina e uma cauda de sereia em vez das pernas. A imaginação atraiçoou-o.

Jean-Michel Basquiat