Existe sempre o caminho da simplicidade, embora deteste segui-lo. Não tenho filhos, não vejo televisão e não acredito em Deus, tudo veredas que os homens percorrem para que a vida lhes seja mais fácil. Os filhos ajudam a adiar a tarefa de nos encontrarmos e, em seguida, são os netos que garantem o mesmo. A televisão distrai da extenuante necessidade de fazer projectos a partir do nada das nossas existências frívolas; enganando os olhos, alivia o espírito da grande obra de sentido. Por fim, Deus aquieta os nossos medos de mamíferos e a insuportável perspectiva de os nossos prazeres terem um dia fim. Assim, sem futuro nem descendência, sem pixéis para embrutecer a consciência cósmica do absurdo, com a certeza do fim e a antecipação do vazio, julgo poder dizer que não escolhi o caminho da facilidade.
in Muriel Barbery, A Elegância do Ouriço, Editorial Presença, 2008