No quarto suburbano extremamente vulgar, abafado, escuro e sem graça, tão excessivamente vulgar que chega a ser sórdido, devidamente periférico e impessoal, jaz Leonor, sobre a cama solteira de olhos fitos no tecto com um buraco inexistente aberto para outra galáxia. Mas este quarto não condiz com ela. Neste quarto há uma janela de onde se vê um quintal onde está sempre um cão a ladrar esganiçadamente junto a uma nespereira velha, mas há também janelas secretas para os mundos, pontos de vigia que escapam aos olhares comuns. É o lugar onde Leonor habita a sua clandestinidade observadora, o lugar insignificante onde vislumbra, com um misto de terror e paixão, a forma esconsa de uma harmonia proibida, pertencente à categoria das coisas que não se mencionam, que nem sequer têm nome, que foram erradicadas dos zonas públicas. Coisas sem nome entrevistas, por vezes adivinhadas, através de um denso nevoeiro. E Leonor encontra essas coisas nos espaços vazios, despovoados, insólitos e perigosos que percorre sozinha com voracidade insatisfeita, arriscando a sanidade, no espaço físico deste quarto lamentavelmente escuro. Encontra os nomes das coisas secretas e regista-os nos seus cadernos, incansavelmente e com a coragem dos rebeldes. Furtivamente.
Lá fora, atrás das persianas corridas e cobertas com a poeira castanha que os carros levantam da estrada, cai sobre os corpos uma luminosidade intensa e vibrante. As pessoas passam felizes na rua e não dão por nada, singelas folhas mortas levadas pelo vento. Passeiam alegrias e tristezas para cá e para lá, efémeras amizades e inimizades, a vida em todo o seu esplendor real, sem desassossegos metafísicos. Há uma certa beleza nesse deambular inofensivo e sem propósito histórico, pensa Leonor. Há uma certa beleza… É a inocência. É a infância.
Digamos que há duas infâncias: a que deveras existe, correspondente a um corpo imaturo e a uma inocência natural, e a que se conquista por nostalgia, essa infância fictícia mas real, pois a realidade mental não deixa de ser uma realidade. Na maioria dos casos, nas pessoas que se passeiam indiferentes na rua, a vida é o exercício do regresso, a chamada segunda infância. Para a maioria das pessoas, esse regresso é inevitável.
Mas Leonor não pertence à espécie. Não pertence a qualquer espécie! É uma pessoa diferente, dessas que não pertencem, das que se vê de longe que não estão bem onde estão, que não encaixam. Aterraram neste planeta com violência, vindas de um país distante onde se pratica o amor livre, mas a nave espacial deixou de funcionar e não há quem a arranje. Depois, não têm outro remédio senão viver assim, na periferia de todas as metrópoles, em lugares esquecidos por Deus, em espera permanente. Os humanos estão na rua incendiados pelos raios do sol primaveril, ou entregues à paixão dos elementos climatéricos de qualquer outra estação, inebriados e fechados no odor pungente da assimilação, irmãos uns dos outros, e ela o que faz? – fecha as persianas e deixa-se estar quieta na cama, perdida num lugar sem nome mas real, insuportavelmente real. Acaso já estiveste num sítio cheio de horrores sem nome do qual não pudesses fugir? Refiro-me a um pequeno monstro de lugar, um quarto sem portas nem janelas mas com uma luz forte incidindo directamente na carne calcinada, nas vísceras que se esgotam no ar nauseabundo, viscoso e peçonhento… E tu tentas abrir uma porta de fuga e não consegues. O problema desse lugar reside na falta de nomeação dos horrores, o que faz com que estes não sejam combatíveis. Não são horrores vulgares. Não é como ires às soluções do teu caderno de exercícios de matemática do 12º ano e estar lá a resposta escarrapachada, e sentires então que a luz do caminho se acende e pões-te de imediato a caminhar até ao próximo enigma, e quando chegares ao próximo enigma é só procurares a solução correspondente no último capítulo do livrinho – digamos que tens toda a legitimidade para fazeres batota… Mas quando o problema é real, não há solução, nem sequer equação, linguagem que o possa descrever, e Leonor sente-se cair nesse abismo da falta de solução. O problema mais difícil, digo-o cabalmente, é o dela, e também o mais perigoso, porque pode-se sempre chegar a uma solução estúpida, o tipo de soluções que são válidas para todos os problemas. Imaginemos por um momento que ela chegava à solução do suicídio… O suicídio é efectivamente uma solução possível para todos os problemas. Elimina-se o mal pela raiz e já está. É unir o nascimento à morte e apagar o resto.
Mas Leonor ainda não pensou seriamente em suicídio. Ocorreu-lhe pensar em suicídio, mas foi apenas como fantasia, e não como realização de um projecto. É que nem teve de pensar se seria capaz de o fazer ou não… O que define a nossa personagem é um enigma indefinível num quarto escuro e isolado do mundo, grotescamente anónimo. Ela ainda não chegou à fase das soluções, porque é ainda muito jovem. Para ela, a inquietude é uma dor, mas é uma dor necessária e talvez até luxuosa, uma dádiva que lhe foi concedida e que ela tem de aproveitar. Sofre injustamente, mas é o sofrimento de uma pessoa que foi eleita para esse sofrimento, porque dele se produzirá uma coisa única. É como a crucificação de Cristo.
Mas Leonor ainda não pensou seriamente em suicídio. Ocorreu-lhe pensar em suicídio, mas foi apenas como fantasia, e não como realização de um projecto. É que nem teve de pensar se seria capaz de o fazer ou não… O que define a nossa personagem é um enigma indefinível num quarto escuro e isolado do mundo, grotescamente anónimo. Ela ainda não chegou à fase das soluções, porque é ainda muito jovem. Para ela, a inquietude é uma dor, mas é uma dor necessária e talvez até luxuosa, uma dádiva que lhe foi concedida e que ela tem de aproveitar. Sofre injustamente, mas é o sofrimento de uma pessoa que foi eleita para esse sofrimento, porque dele se produzirá uma coisa única. É como a crucificação de Cristo.
Num quarto anónimo encerrado em sombras perpétuas, uma luz insólita treme e agita-se, dança loucamente à volta do mesmo sítio, à espera da coragem de sair lá para fora, para o meio das pessoas, e incendiá-las. Ou à espera que algum acontecimento catalise essa mudança. Somente à espera.