10 de agosto de 2009

A FELICIDADE É UMA DITADURA!!!

Trata-se de uma antiga lenda sobre o Paraíso (que repuxo de cuspo jorrou deste P). Uma lenda que se aplica ao nosso caso, a este nosso tempo. Sim, vais já pode ajuizar. Aquele casal, no Paraíso, teve que escolher entre felicidade sem liberdade ou liberdade sem felicidade. Não havia terceira alternativa. Os pobres doidos escolheram a liberdade e aconteceu sabes o quê? Evidentemente, durante as épocas que se seguiram suspiraram pelas algemas. Algemas, percebes? É o significado do Weltschmerz. Durante séculos! E só nós é que por fim descobrimos a maneira de recuperar a felicidade. Mas escuta, escuta agora o seguinte: o Deus dos antigos e nós sentamo-nos lado a lado, à mesma mesa. Sim! Ajudámos Deus a vencer o Diabo de uma vez por todas. Porque era o Diabo que incitava os mortais a transgredirem o interdito, a provarem a liberdade perniciosa, era ele, a serpente subtil. Mas nós, com calcanhar forte, esmagámos a cabeça do insignificante ofídio e scratch! E chamámos a nós o Paraíso, novamente. Tornámos a ser simples de coração, inocentes como Adão e Eva. Acabaram-se todas aquelas tolices a respeito do Bem, a respeito do Mal; tudo é tão simples quanto pode sê-lo, infantil, paradisiacamente simples. O Benfeitor, a Máquina, o Cubo, a Campânula Pneumática, os Guardas: tudo isso é bom, grande, esplendidamente belo, nobre, exaltado, cristalino. São tudo formas de proteger a nossa não-liberdade, ou seja, a nossa felicidade. No nosso lugar, os antigos começariam a reflectir sobre tudo isso, a fazer comparações, a quebrar a cabeça com o que é e o que não é ético.

Evgueni Zamiatine, Nós, trad. Manuel João Gomes, Antígona, 2004