12 de agosto de 2009

4 - Corvos da imaginação prodigiosa

― Olá! Como vai isso, tudo bem?
É sempre com este tipo de alegria, excessivamente constante, diária, que a empregada do café lhe dá as boas vindas ao estabelecimento. A sua boa disposição chega a ser irritante. Grotesca. Dá ideia que a mulher é cega para o que se passa no mundo, ou simplesmente louca, talvez tenha uma deficiência neurológica que a destitua da porção de tristeza que faz parte das pessoas normais. Sim, porque uma pessoa que está sempre alegre não é pode ser lá muito saudável…
― Bom dia, Lucinda. Cá se vai andando, com a cabeça entre as orelhas. Faço o que posso.
― O que é que vai ser?
― Um galão e meia torrada.
Senta-se a mesinha livre perto da janela e tira o livrinho preto onde escreve as palavras que lhe ocorrem de vez em quando no comboio, em certas manhãs de inspiração poética. São palavras que a resgatam da confusão da vida e anunciam a existência de uma estética intemporal e sublime, que dá sentido à existência, mesmo que esse estética seja por vezes atroz, por ser incomparavelmente superior ao mundo em que vive, tragicamente inestético. Outras vezes, voam-lhe para a cabeça frases que, em vez de descreverem o belo inexistente, sublimam o feio existente ao horrível e terrífico. Leonor oscila entre as duas utopias, o extremamente belo e o insuportavelmente feio, o Paraíso e o Inferno. Oscila entre os dois absolutos como um trapo esvoaçante no bruto vendaval da inspiração, ante o qual não há nada a fazer. Pega-se numa caneta, num pedaço de papel, e escreve-se, escreve-se com fervor até que a sede de infinito se extinga. Elimina-se o excesso de vida. Cede-se. Eis o que Leonor escreve:
Estes pássaros lançam-se empertigados e frenéticos contra as janelas, querendo
parti-las para entrarem em mim. São milhões e só eu os vejo. São negros como
corvos, mas sei que não existem nos tratados de biologia, porque ainda não foram
estudados, portanto não são corvos. São talvez demasiado aterradores para alguém
lhes prestar atenção, para alguém lhes ver. Eu sou especial. Vejo-os, passo a
vida toda a vê-los porque tenho uma coragem invulgar. Não os quero ver, mas não
posso deixar de ter a minha visão, o meu talento, porque senão morreria. Não
quero morrer. Viverei sob a fúria destes milhões de corvos de um outro mundo,
que querem comer-me os miolos, e entre os cegos da minha própria espécie, que
não os vêem porque não têm tomates. Sou uma mulher com tomates!
Entretanto, chegam-lhe à mesa a torrada e o galão, juntamente com o eterno sorriso imbecil de Lucinda, que se apressa a exclamar-lhe um lancinante bom-apetite. Enquanto come, Leonor observa à sua volta a frequente inquietação matinal das pessoas emproadas, enfiadas nas suas cogitações profissionais, abelhas e formigas, com excepção evidente e rotineira para o pensionista idoso que lê um jornal desportivo, traços fisionómicos de um velho sacana grosseiro e mafioso, características de um rosto antigo que vão desaparecendo sob as areias movediças do tempo, atrás das rugas, dando lugar a outro rosto ainda mais antigo, que é o rosto da morte, da ternura da morte. É isso… Desaparece a inquietação da vida e aparece a ternura denunciado a morte. Tarde ou cedo, essa ternura e essa morte aparecem a toda a gente.
A morte ternurenta é exclusiva dos idosos no fim da linha, mas há em alguns rostos jovens uma outra morte, que é a morte horrível em vida – o caso da trintona caixa-de-óculos que se dedica, sempre que a vê no café, sem companhia, à leitura da invariável revista de empolgantes fofoquices, perdendo uma lastimável quantidade de tempo na secção das previsões astrológicas, enquanto vai sorvendo o café. A mulher tem um rosto apagado e mórbido, fechado para divagações da autoria dos jornalistas da revista – adivinhamo-la na companhia dos cometas que povoam este mundo, em casamentos de luxo ou divórcios conturbados, em hotéis de cinco estrelas ou singularmente adornadas discotecas, distintas perfumarias e boutiques da moda. Leonor surpreende-se a ela própria com este pensamento – as divagações desta leitora infatigável de revistas rosa-choque não são geradas por ela, mas por outras pessoas. Todo o seu imaginário, o teor das suas fantasias conscientes, é configurado pelo poder que vigora na tribuna da comunicação social. Esta mulher está morta porque a sua individualidade não é visível.
Leonor acaba o galão e paga a conta. Lucinda berra-lhe um lancinante volte-sempre.