Tira a chave da mala, enfia-a na ranhura e roda para a esquerda, não para a direita, para abrir a porta da livraria. The Marvellous Pages é o nome que o senhor Tavares se lembrou de atribuir à loja, palavras mágicas que lhe apareceram na cabeça a dançar quando voltava para casa depois de um concerto numa noite mística. Leonor abre a porta para a obscuridade dos livros, para a obscuridade própria da literatura, entra e acende a luz. Imagina que, durante a noite, os espíritos daqueles que criaram todos aqueles livros estiveram para ali a fazer uma grande festa ruidosa, com montes de álcool e erva, guitarras e saxofones, convocados pela poesia que escreveram em vida, vindos de toda a parte. Alguns ressuscitaram por causa da festa, porque de facto a morte para os criadores não existe – sempre que há uma ocasião de grande alegria, júbilo supremo, os espíritos dos artistas vencem a morte e vão ter com os seus pares a uma cave oculta da fúria dos censores, onde comemoram a imortalidade e a invencibilidade da alma, como deuses num Olimpo secreto e inacessível a gente como nós. O primeiro a chegar ao local da celebração sem tempo é o Walt Whitman, que não se alcoolizou mas está ébrio com o fulgor imorredoiro do seu ego de criança grande. Vem outro maluco a seguir, aos saltos e agitando os braços, gritando sílabas a plenos pulmões desde a noite dos tempos – é o Jack Kerouac, poeta prosador que, do esplendor da eterna infância, atirava sinfonias de palavras para o ar que toda a gente ouvia, que muita gente ouvia sem saber, que, como todos os grandes artistas, acabou por definir a história sem pretensamente o querer. Depois do Jack Kerouac, chegam talvez o Fernando Pessoa e o Alexandre O'Neill, que foram oficialmente portugueses por mera coincidência, vítimas de uma arbitrariedade histórica que define a simultaneidade na geografia habitada por dois grandes poetas, quando toda a gente sabe que na poesia há outra geografia, outros rios, outras terras sem limites e sem leis. Mas seguem-se outros, inúmeros poetas que fizeram parte da árvore da humanidade. A Sylvia Plath matou-se, enfiou a cabeça num fogão a gás para aniquilar o ego tormentoso, mas aí está ela, curada de todas as depressões maníacas! E brinca e goza, jaz de amor supremo nos braços do amado Ted Hughes. E segue-se um rol de admiráveis bardos do amor e da liberdade… A festa prossegue e o silêncio da noite acaba, a música assalta a noite, as palavras voam e estilhaçam os vidros, provocam brechas nas paredes e entram em ouvidos de artistas por nascer.
No entanto, mal ela abre a porta a festa dissipa-se, os livros voltam às prateleiras sem as nódoas do vinho entornado em pleno espasmo orgíaco dos génios, as garrafas e os instrumentos musicais volatilizam-se, todas as marcas desaparecem do local. Ela acende a luz e já os livros estão mortos e enfileirados nas prateleiras, prontos a serem devorados pelas traças vorazes, que são os leitores. E então senta-se, abre o computador, vê o mail, as notícias do dia, e espera. Geralmente, pouco há a fazer de manhã, mas alguém tem de estar na loja. Nesses ocasiões, Leonor retoma a leitura de um livro e desliga-se da realidade quotidiana para entrar num dos imensos mundos paralelos que a arte tem para oferecer, mas vai também descobrindo este mundo, os pormenores e as razões profundas, o que é para mudar e a beleza extática, infortúnios e bem-aventurança.
No entanto, mal ela abre a porta a festa dissipa-se, os livros voltam às prateleiras sem as nódoas do vinho entornado em pleno espasmo orgíaco dos génios, as garrafas e os instrumentos musicais volatilizam-se, todas as marcas desaparecem do local. Ela acende a luz e já os livros estão mortos e enfileirados nas prateleiras, prontos a serem devorados pelas traças vorazes, que são os leitores. E então senta-se, abre o computador, vê o mail, as notícias do dia, e espera. Geralmente, pouco há a fazer de manhã, mas alguém tem de estar na loja. Nesses ocasiões, Leonor retoma a leitura de um livro e desliga-se da realidade quotidiana para entrar num dos imensos mundos paralelos que a arte tem para oferecer, mas vai também descobrindo este mundo, os pormenores e as razões profundas, o que é para mudar e a beleza extática, infortúnios e bem-aventurança.