6 de janeiro de 2009

O Verdadeiro Poeta

É a pressão da sociedade, e a premência de sobreviveres nela, que te leva a querer ter um futuro, mas no fundo queres ser criança e passar a vida a brincar. Os poetas são crianças no momento mágico da poesia, quando não existem futuros e o que existe agora é derradeiro.

Muito se tem dito sobre as qualidades essenciais que fazem do poeta aquilo que ele é no seio de uma sociedade habitada quase exclusivamente por indivíduos que se encontram quase mortos, que só se designam humanos por preguiça de não haver outra palavra que os descreva – ou talvez por vergonha deste estado vegetativo essa palavra não tenha sido encontrada. A poesia é a vida extrema e resulta da autenticidade. Para seres poeta, é preciso antes seres autêntico. Aliás, assim que descobres essa autenticidade não podes deixar de ser poeta. O poeta não o é por escolha nem por convicção. A poesia é uma doença irremediável, a doença crónica de não se estar de acordo com a falta de autenticidade. Posto de forma muito simples, a poesia é a luta contra a falta de autenticidade do mundo, mas também a afirmação da força da autenticidade de uma parte muito pequena desse mundo. O artista é o sal da terra?
Se esse ser autêntico e invulgar escolhe a arte para manifestar esse virtude, por via das palavras ou de outros símbolos, então é um poeta no sentido convencional do termo. Contudo, se for suficientemente louco recusa qualquer tipo de manifestação reflectida e embarca na aventura do agir com total liberdade de movimentos – os do corpo e os da alma, irreflectidos e selváticos, como que viagens aos tempos primordiais, e portanto perigosos para os poderes sociopolíticos, para as chamadas hierarquias históricas, porque nos tempos primordiais não havia Estado. O poeta da existência, devido ao estado de beatitude em que se encontra, não pode deixar de ridicularizar os chefes auto-proclamados, e deita abaixo a suposta legitimidade dos mesmos. O riso é a sua forma de subversão, na verdade a forma mais eficaz de subversão. Rir é pecaminoso.