19 de novembro de 2009

vou escrever toda a verdade com esta caneta que me cansa

Sei do que a minha caneta precisa para escrever bem. Compreendo a minha caneta. Conheço-lhe os hábitos, por isso poderia inventar uma melhor. Hei-de inventar uma caneta melhor, porque sinto o que é preciso. Não gosto de carregar no papel, mas uma caneta de tinta permanente gosta que se carregue no papel. Estou habituado a escrever a lápis, porque me canso menos. A caneta de tinta permanente cansa-me a mão, porque tenho de carregar no papel. Hei-de inventar uma caneta que não obrigue a fazer força. A força que a caneta de tinta permanente exige não dá beleza à letra, por isso não se devia ter de fazer força. A força que se faz não deixa escrever bem, mas não vou pôr a minha caneta de parte enquanto não tiver inventado outra. Se a caneta se partir, mandá-la-ei concertar. Se a caneta se cansar, comprarei outra. Não deitarei fora esta caneta enquanto ela escrever. Não largarei esta caneta enquanto não tiver inventado uma nova. Quero que as pessoas trabalhem para se aperfeiçoarem, por isso escreverei com esta caneta. Gosto dos objectos aperfeiçoados. Não gosto dos objectos. Gosto dos objectos se são necessários. Não gosto da publicidade, porque a publicidade mente. Gosto da publicidade porque a publicidade é a verdade. Gosto da verdade, por isso vou escrever toda a verdade com esta caneta.

em Cadernos, Vaslav Nijinski, Assírio & Alvim, 2004