12 de maio de 2009

Caderno de Viagens - Argentina, 24 de Abril a 8 de Maio de 2009


Súbito Lirismo em Buenos Aires
Os pássaros, cansados enfim da liberdade singular do vôo, única glória admissível, deixaram um dia de mexer as asas e cantar. Repousam agora nas águas serenas da morte para não mais acordarem.
Mas eu falo – e eles irados se levantam, cansados de aniquilamento, e o vendaval furioso da vontade insufla-lhes uma vida extrema, e a chama imorredoira ergue-se e fica para sempre no ar.

Os deputados da primeira república da história primitiva aproximam-se de mim e olham-me com espanto de aborígene para alienígena – quem sou eu? Eu dir-lhes-ia que não sou ninguém, se as sombras do mundo merecessem a sinceridade da individualidade rejeitada… Missionário do futuro, foi o que eu lhes disse, e eles olharam para mim e furaram-me os olhos somente com a força desse espanto inolvidável… Agora ando cego pelo mundo e não vejo quem me prega as rasteiras. Agora é que já não sou ninguém… Tenho apenas ouvidos. Ouço como ninguém os sons do Universo, consigo mesmo ouvir as secretas melodias e registo-as afincadamente.

Caminha-se para o país fantástico como quem caminha para um paraíso ou inferno desejado da infância – o país é meramente ficcional mas tem um poder extremo, que é o de desencaminhar as aves de rapina, furtá-las ao sentimento de independência e ao desígnio de homicídio.

No intervalo dos gemidos, criei o paraíso perfeitos dos infiéis, uma colónia para a experimentação do amor extremo…

Percorro as ruas insólitas desta cidade, sozinho, e sinto-me perdido, selvagem furtivo no borbulhar sem sentido da civilização selvagem – a minha cidade é outra. Vim do outro lado do mar, a terra incógnita, como alguns de vocês lhe chamam… O meu lugar de origem está ausente de todos os planos cartográficos. Eu pertenço à estirpe dos inventores. A terra incógnita não é a terra lendária urdida em sonhos programados, a eterna fantasia, como muitos afirmam ignorantes da miséria alheia, mas aquela onde a inevitabilidade da vida e da morte, o sentimento dessa inevitabilidade, faz nascer no viajante a capacidade maldita da criação. A arte não é um método de fuga e encontra-se sempre em terra estranha e inóspita, a pedra mágica do início. Nutre-se da dor e faz com que esta aumente, é uma toxicodependência invencível… Nós, os proscritos, os exilados, encontramos subsistência nos frutos de amargura que brotam do chão, terra árida e sem piada onde lançamos as sementes do pecado – não sabemos de que forças inoperáveis provém este milagre inaudito… O veneno, em vez de nos matar como faz aos outros, os que comem de queijo de cabra, a nós alimenta-nos e faz-nos crescer, ainda que esse crescimento seja incomparavelmente penoso.

Batucada na infindável noite porteña
Mas depois à noite, no bairro de Abasto, pessoas alegres nas ruas mijadas de cerveja e vinho, a deambular por ali envolvidas em discussões, todos os ouvidos à escuta e atentos à cena, casas em ruínas porém suficientes e corajosas, rostos a caíram fisicamente para a morte mas invejavelmente alegres… Nessa noite, no recinto ao ar livre – Ciudad Cultural Konex –, 15 pesos à entrada (o equivalente a 3 euros), a bomba do tempo explode nas cabeças. Definição da alegria específica do momento: a batucada urbana e tribal, as vaginas dançantes, loucas, vaivém das ancas soltas, uma nuvem enorme e até mesmo universal de marijuana, os voláteis da vida no ar, uma comunhão…

Fin del Mundo
Chuva: cai furiosamente e fura os sentimentos, parcos em força e convicção – haverá algo mais convicto e verdadeiro que esta fúria natural da água? Esta é a fúria poderosa dos elementos, a fúria que tudo absorve. As angústias da cidade fazem sentido? Já não… Constato que a insuperável planura do lago e o vagar das pequenas ondas, o som repetido infinitas vezes, os cumes brancos do Chile ao longe, as paisagens que se adivinham por trás, desertas e surreais, são superiores à vanidade da minha fadiga de formiga.

Sobre os viajantes:
Eles vivem mais do que nós, os viajantes, vivem mais intensamente. Atravessam estas paisagens austeras mas belas, munidos de alma e cantil, e ruas sombrias perigosas, habitadas por velhas feiticeiras aztecas e criminosos sociopatas, com um sorriso no rosto cansado e com sede, não vá a vontade perder-se para a morte… Conhecem as várias facetas do mau humor do vento e do sol, a violência que os elementos podem exercer no ser humano, a fúria verdadeira e inocente das atmosferas… Podem morrer a qualquer instante. Sabem tudo. Nós, o gado da cidade que permanece fechado, cercado pelas sombras privativas da cogitação mórbida, nós os urbanos, os defuntos da cidade, nós nada sabemos em relação a eles, os viajantes, porque eles estão em permanente comunhão com a natureza e a humanidade, e nós não.

Não sei porquê, mas ocorre-me instantaneamente que as máquinas fotográficas dos turistas são tipo espingardas… Há índios, não sei bem quais são, que crêem que o retrato fotográfico de um homem rouba-lhe a alma, creio que são os aborígenes australianos, lembro-me agora de uma cena que vi no Crocodilo Dundee. Terá sido mais ou menos assim que todas as personagens de A Invenção de Morel desapareceram, comidos pela máquina de filmar vidas. Talvez as máquinas fotográficas destas turistas sejam mesmo espingardas de grande potência, que disparam para a paisagem e acabam com ela, roubando a alma do lugar – isto que eu vejo é sem dúvida uma paisagem sem alma.

E é à noite, principalmente à noite, quando as águas do degelo entram pelas frinchas das portas e gelam o coração insone, a cabeça doente sem sono, é principalmente à noite que eu volto às ruas desta vida, recordando os seus momentos insólitos.

Encontro-me no princípio do que pode ser o mundo, sou talvez aquele que pode começar a sua construção, aquele que o pode criar de raiz, o fundador, o pioneiro, aquele que cansado e quase a morrer, cheio de sede e fome… Ainda assim sou eu que o pode fazer. Erguerei primeiro uma tenda rústica e discreta, para não importunar demasiado os espíritos incrédulos. Uma tenda feita com materiais que sobrem das morgues, os únicos que existem, mas trazidos à vida.