3 de abril de 2011

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Há uma casa no meio do nada onde vivem umas pessoas. Na existência da espécie humana há problemas que a perseguem e se manifestam como desejos prementes e angustiantes de saber causas primárias para as suas desventuras. Em particular no que a estas pessoas diz respeito, desconhece-se a razão que fez com que elas habitem agora a casa. Possivelmente foram obrigadas a tal, mas não sabe por quem nem porquê. Não se sabe nada. Conhece-se apenas, e até muitíssimo bem, a casa e o que fica à volta. A casa é branca e grande. Parece uma prisão, mas não tem grades. Talvez seja uma prisão que não precise de grades, porque o espaço vegetal que fica à volta é imenso. O espaço vegetal que fica à volta é uma Natureza que parece não ter fim. Há nele muitas árvores de vários tipos, vegetação baixa, flores, lagoas, riachos, pedras, colinas e vales. É muito estranho, se não mesmo impossível, não haver indício de presença de animais, mas o certo é que não há, como o atesta cada um dos moradores. Os únicos animais que existem na região estão na casa – as pessoas, claro está, mas para além delas há insectos muitíssimo enervantes, que rastejam pelo chão e pelas paredes ou voam por tudo quanto é sítio. Conhece-se o nome comum de alguns desses bicharocos: formigas, baratas, moscas, pulgas, percevejos, borboletas, mosquitos, aranhas, traças, vespas, mariposas, libélulas, gafanhotos e besouros. E há insectos de que não se conhecem os nomes, talvez alguns que não tenham nome sequer, por existirem somente ali, mas são todos muito chatos e nada simpáticos. Morrem pouco. Alguns moradores dedicam-se ao estudo destes insectos, uma vez que pouco há para fazer de interessante na casa. Por causa do tédio, tornaram-se insectólogos (ou melhor, entomólogos).
Quanto aos animais inteligentes que falam, as pessoas, são 127 a ocupar actualmente a casa – com poucas excepções, criaturas infelizes que apregoam todos os dias ao vazio o quanto não suportam a ignorância já referida. Pura e simplesmente, os ajuizados seres não se conseguem habituar ao famigerado desconhecimento. São terrivelmente humanas, com tudo o que essa condição possa ter de trágico, e por isso não se fartam de bramir, esconjurar, gritar, chorar, lamuriar, por aí fora… Mas são bramidos, esconjurações, gritos, choradeiras e lamúrias vãs, porque estão a fazê-lo para o vazio, e, que se saiba, até à data ainda não surgiu do vazio mais do que uma redonda ausência. Mas alguma razão deve haver que justifique cada uma destas pessoas ter acordado ali de repente, num qualquer terça-feira (ou outro dia da semana, não importa qual), para viver um degredo forçado num pequeno país incompreensível com muito arvoredo à volta em que se vê estrangeira até aos ossos. E provável seria que estas 127 pessoas tivessem alguma coisa em comum que fosse a chave para essa justificação – algo na história de vida, ou uma característica individual partilhada por todos, talvez a loucura, talvez uma opinião do mundo demasiado perversa que tivesse de ser expurgada, ou uma dissidência política criminosa –, mas não… Nada há de comum entre os indivíduos eleitos que possa ter servido de critério. Pelo contrário, são todos muito diferentes uns dos outros, embora possamos classificá-los em grupos consoante género sexual, religião, raça, filosofia política, tipo de ocupação profissional, características psicológicas, grau de literacia, índice de massa corporal, etc. Mas cada um dos 127 acordou um dia num dos quartos da casa e teve um susto tremendo, ao constatar que o seu corpo tinha sido transferido para ali sem explicação aparente.